21 de maio de 2008

A Reflexão

...la Réflexion, ainsi que le mot l’indique, est le pouvoir acquis par une conscience de se replier sur soi, et de prendre possession d’elle-même comme d’un objet doué de sa consistance et de sa valeur particulières: non plus seulement connaître – mais se connaître ; non plus seulement savoir, mais savoir que l’on sait. Par cette individualisation de lui-même au fond de lui-même, l’élément vivant, jusque-là répandu et divisé sur un cercle diffus de perceptions et d’activités, se trouve constitué, pour la première fois, en centre ponctiforme, où toutes les représentations et expériences se nouent et se consolident en un ensemble conscient de son organisation.

Teilhard de Chardin, "Le Phénomène humain"

20 de maio de 2008

Noogénese e Noosfera

Sautant directement du vieux dualisme statique, qui me paralysait, pour émerger dans un Univers en état, non seulement d'évolution, mais d'évolution dirigée (c'est-à-dire de Genèse), j'étais amené à opérer un véritable «tête-à-queue» dans ma poursuite fondamentale de la Consistance. Jusqu'alors, je l'ai dit, c'est du côté de l'«extrêmement simple» (c'est-à-dire du physiquement indécomposable) que tendait à s'orienter et à se fixer mon sens directeur de la Plénitude. Désormais, puisque l'essence unique et précieuse de l'Univers avait pris pour moi la forme d'un Évolutif où Matière se muait en Pensée par effet prolongé de Noogénèse, c'est avec une extrême Complexité organique que je me trouvais inévitablement et paradoxalement amené à identifier l'extrême Solidité des choses.
[...]
deux immenses Unités vivantes commençaient à monter sur mon horizon interne, - unités dé dimensions planétaires où, par excès justement de composition et d'organicité, je pouvais voir un extraordinaire pouvoir de « consolidation par complexification » se manifester au sein de l'Étoffe cosmique : L'une où venaient peu à peu se grouper et s'harmoniser sans effort mes multiples expériences de biologiste sur le terrain et en laboratoire : l'enveloppe vivante de la Terre, - la Biosphère.
Et l'autre, pour la perspective définitive de laquelle il ne faudrait rien moins, sur mon esprit, que le grand choc de la Guerre : l'Humanité totalisée, - la Noosphère. 

Teilhard de Chardin, "Le coeur de la matiére"

Matéria e Espírito


“Par éducation et par religion, j'avais toujours docilement admis, jusque-là, - sans bien y réfléchir, du reste -, une hétérogénéité de fond entre Matière et Esprit. - Corps et Ame, Inconscient et Conscient: deux «substances» de nature différente, deux «espèces» d'Être, incompréhensiblement associées dans le Composé vivant, et dont il fallait à tout prix, m'assurait’ on, maintenir que la première (ma divine Matière!) n'était que l'humble servante (pour ne pas dire l'adversaire) de la seconde : celle-ci (c'est-à-dire l'Esprit) se trouvant dès lors réduite à mes yeux, par le fait même, à n'être plus qu'une Ombre, qu'il fallait bien vénérer par principe, mais pour laquelle (émotivement et intellectuellement parlant) je n'éprouvais en réalité aucun intérêt vivant.
Qu'on juge, par suite, de mon impression intérieure de libération et d'épanouissement lorsque, à mes premiers pas, encore hésitants, dans un Univers « évolutif », je constatai que le dualisme dans lequel on m'avait maintenu jusqu'alors se dissipait comme brouillard au soleil levant.
Matière et Esprit : non point deux choses, - mais deux états, deux faces d'une même Étoffe cosmique, suivant qu'on la regarde, ou qu'on la prolonge, dans le sens où (comme eût dit Bergson) elle se fait, - ou au contraire dans le sens suivant lequel elle se défait. ”

Teilhard de Chardin, "Le coeur de la matiére"

19 de maio de 2008

Separação entre a Igreja e o Estado

O famoso aforismo, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mt 22, 21) e a declaração de Jesus, diante de Pilatos, o meu Reino não é deste mundo (Jo 18, 36), pertencem às origens do cristianismo. É o princípio da separação do poder político e das instituições religiosas. Apesar de todas as interferências e confusões político-religiosas, no regime de Cristandade, este princípio criou, desde o começo, uma tensão propícia à eclosão do Estado moderno emancipado de toda a tutela religiosa. 

Frei Bento Domingues

17 de maio de 2008

“Humanae Vitae”


O grande cisma, na Igreja pós Vaticano II, não é o dos “lefebvristas” franceses, para os quais, agora, se dirigem os passos da reconciliação. A opção manifestamente errada, sem remédio à vista, começou em 1968 com a publicação da encíclica “Humanae Vitae”. Como diz o bispo Georges Gilson, “o que decidimos em 1968 não é nem praticado nem sequer pensado. Para mim, é um drama, não há outra palavra”

Frei Bento Domingues

16 de maio de 2008

Roma locuta

O processo doutrinário contra o livro Igreja:carisma e poder (Record, 2004 com as atas do processo) não se concluiu com o "diálogo" com o Cardeal inquisidor. Faltava ainda a palavra final do corpo de Cardeais e do Papa. E esta veio em maio de 1985, quando subitamente apareceu na portaria do Convento de Petrópolis onde ensinava, um representante do Núncio Apostólico de Brasília. Entregou-me um livreto, impresso na Poliglota Vaticana: "Notificação sobre o livro Igreja: carisma e poder, ensaios de eclesiologia militante". E disse-me: enquanto rezo na igreja ao lado, leia o texto. Depois conversaremos. Li com vagar. Pareceu-me um pastiche de frases, tiradas daqui e dali, formando um sentido que não reproduzia meu pensamento. Veio o representante do Núncio e me perguntou: aceita ou rejeita o texto? Eu lhe disse, sereno: aceito, porque não sou eu que está ai dentro. Há afirmações que eu também condeno. Mas aceita? insistiu. Condenando, aceito, disse eu. Graças a Deus, suspirou ele. E eu: por que tantas graças a Deus? Porque se não acolhesse o texto, confessou, teríamos um grave problema eclesial e eu lhe imporia as penas canônicas contidas neste envelope.

Com isso esperava que tudo tivesse terminado. Qual não foi a minha supresa quando dias após, por telefone, um alto funcionário do Vaticano me ditava as penas: deposição da cátedra de teologia, de editor da Vozes, de redator da Revista Eclesiástica Brasileira e a imposição de "silêncio obsequioso" por tempo indeterminado pelo qual não poderia falar em público nem publicar mais nada. Firmado no direito canônico, apenas respondi: só acatarei as penas quando o documento oficial chegar às minhas mãos. Demorou 20 dias.

Bispos importantes fizeram-me entender: o problema era mais político que doutrinário. Tratava-se de frear a CNBB em seu ímpeto libertador e eu era apenas o pretexto. Por isso pensadamente declarei: "Prefiro caminhar com a Igreja que, sozinho, com minha teologia". Teria afastado um golpe contra a CNBB e poupado as CEBs e a teologia da libertação.

Depois de onze meses, devido às muitas pressões sobre o Papa, na noite de Páscoa de 1986, fui liberado do silêncio obsequioso e das demais restrições. Livre, continuei minhas múltiplas atividades. Até que durante a Eco-92 no Rio de Janeiro, foi-me comunicado pelo Cardeal Baggio e pelo Geral da Ordem Franciscana que novamente deveria me submeter ao silêncio obsequioso e renunciar ao ensino da teologia. Deveria sair do país e do Continente. Foram-me sugeridos conventos nas Filipinas ou na Coréia. Mesmo lá deveria guardar o silêncio obsequioso e as demais penas.

Pensei comigo: também para um teólogo devem valer os direitos humanos e o direito inalienável de se expressar. Em razão disto, com dor disse: troco de trincheira mas não de combate. Não deixarei a Igreja, mas uma função dentro dela. Continuarei como teólogo e escritor, com um pé no ensino e com o outro nos meios pobres e populares. Assumi a cátedra de Etica, Filosofia da Religião e de questões contemporâneas na UERJ. Em seguida passei a ensinar como professor visitante em algumas universidades estrangeiras. Mas sempre com os pés e a mente aqui, meu campo de ação.

Passados vinte anos, confesso que me esforcei muito para que minha alma não ficasse pequena, consoante o que cantou o poeta: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena". 

Leonardo Boff, Artigo publicado no Jornal do Brasil em 1 de Outubro de 2004; in Artigos, www.leonardoboff.com

15 de maio de 2008

Na sala da ex-Inquisição

Os fatos objetivos sempre vêm revestidos dos sentimentos daqueles que os vivem. Como senti eu os eventos de meu processo na ex-Inquisição em Roma em 1984?

Pontualmente às 9.00 horas oficiais do Vaticano vieram me buscar. Antes mesmo de me despedir de meu Superior, me agarraram e me empurram para dentro do carro que saiu em disparada até o Vaticano, próximo daí. Senti-me como alguém sequestrado pelas "brigatte rosse".

Escoltado por guardas suiços, fui conduzido ao elevador. No andar de cima, outros dois guardas me esperavam com o Cardeal Inquisidor, Joseph Ratzinger todo paramentado de cardeal e eu com o simples burel. Saudei-o em bávaro para desanuviar a tensão. Mas imediatamente fui conduzido por um longo salão de uns cem metros todo acarpetado, com paredes repletas de quadros renascentistas. No fim, uma pequeníssima porta. Mal podia passar. É um sala pequena, cercada de livros,com minúsculo pódio onde se sentam o inquisido e o inquisidor. Abaixo, o notário anota tudo. Sem delongas começa o trabalho. Eu atalho o Cardeal e lhe digo: Sr. Cardeal, no meu pais somos ainda cristãos; em coisas sérias invocamos Deus. Ao que o Cardeal, surpreso, inicia ritualmente a recitação do Veni Sancte Spiritus. Para uma visão jurídica da Igreja, Deus realmente sobra. Comecei a ler o que havia preparado. O Cardeal fez apenas duas interrupções. Uma para saber o que era uma Comunidade Eclesial de Base que ele imaginava uma célula comunista onde se preparavam os militantes porque ai se fala sempre em luta. E outra com a qual estou em disputa com ele até os dias de hoje. Afirma ele: só na Igreja Católica se encontra a Igreja de Cristo. Nas outras há apenas elementos, como portas e paredes mas não chegam a formar uma casa. Por isso não são igrejas nem devem, de direito, ser assim chamadas. Coisa que considero ofensivo, arrogante e simplesmente errôneo face à Tradição.

Houve pausa de café no grande salão. De todos os lados, vinham funcionários com o seu exemplar do livro condenado Igreja: carisma e poder pedindo autógrafos, coisa que irritou sobremaneira o Cardeal. Em todos escrevi a mesma coisa:"Conserve a herança de Jesus, a liberdade, conquistada não com palavras mas com o próprio sangue". A sós, o Cardeal e eu olhávamos as telas, até pararmos diante de uma enorme com um São Francisco, todo lascado, mas transfigurado no alto. No chão, de joelhos, o Papa com a tríplice coroa na cabeça. Eu disse ao Cardeal: eis o símbolo da Igreja que defendemos,dos pobres, figurada por S. Francisco e o Papa de joelhos a seu serviço. E o Cardeal: você, teólogo da libertação, politiza tudo; aqui temos uma obra de arte e não uma peça de teologia. Ao que lhe disse apontando para as grandes janelas quadriculadas de ferro: o Sr. não tem olhos para a teologia da libertação porque vê o mundo dos pobres por aquelas janelas quadradas por onde não chega seu grito.

Tivemos mais uma hora de trabalho. No final um encontro com os dois cardeais brasileiros Arns e Lorscheider que vieram me apoiar. Dom Arns foi logo direito: Sr. Cardeal Ratzinger, não gostamos de seu documento sobre a teologia da libertação. Pedimos um outro que faça justiça às igrejas que tomam a sério a opção pelos pobres e por sua libertação. Ao construir uma ponte o Sr. não chamou um engenheiro mas um gramático. Convide nossos construtores e eles o ajudarão a fazer uma boa teologia da libertação, útil à toda a Igreja.

Leonardo Boff, Artigo publicado no Jornal do Brasil em 24 de Setembro de 2004; in Artigos, www.leonardoboff.com

14 de maio de 2008

Na cadeira de Galileo Galilei


No dia 7 de setembro [de 2004] serão 20 anos em que sentei na cadeirinha onde sentou também Galileo Galilei e Giodano Bruno no Palácio do Santo Ofício (ex-Inquisição) em Roma para defender opiniões do meu livro Igreja: carisma e poder. Ser convocado à presença da mais alta instância doutrinária da Igreja não é um fato corriqueiro na biografia de um teólogo. Reportando-me ao poeta chileno Pablo Neruda, é certamente memorável e, ao mesmo tempo, dilacerador encarnar, por um momento sequer, a razão e o destino de toda uma caminhada de pensamento e de prática eclesial com os pobres. 

Subjetivamente é muito oneroso sentir o peso da instituição milenar da Igreja caindo sobre sua cabeça. Mais penoso ainda é sentir os limites desta instituição, pois, percebe que não raro, ela está mais interessada na segurança do que na verdade, mais na manutenção da própria imagem do que servir à causa dos humilhados e condenados da Terra.

Passados vinte anos, vejo que houve aí algo providencial. O fato foi noticiado e comentado nos principais órgãos de comunicação do mundo. Por aí, a opinião pública pôde entrar em contacto com um outro tipo de Igreja, destituida de poder, simples e profética, que faz corpo com os pobres e que, por isso, participa também da maledicência e da perseguição que padecem. Pôde conhecer também uma teologia que coloca a vida no centro, feita no sentido da libertação histórico-social dos oprimidos e não apenas para a edificação interna da galáxia eclesial. A teologia da libertação virou assunto de conversas nas ruas, nos bares e em rodas de intelectuais. 

A opinião públicou captou a dimensão ética da libertação: ela concerne às grandes maiorias sofredoras da humanidade. Entendeu a argumentação básica: os cristãos, pelo fato de serem seguidores do Nazareno, torturado e morto na cruz, são urgidos a serem agentes de libertação. É possível uma teologia que nasça deste compromisso, fiel à grande Tradição e articulada contra a injustiça social e em favor de mudanças estruturais. A imagem de Deus que daí surge, é compreensível por todos: Deus está mais interessado na justiça que no rito, mais ligado ao grito do oprimido que às louvações dos piedosos. São as práticas e não as prédicas que contam.

Por fim, por mais que as autoridades se considerem "Eminências Reverendissimas" não deixam de ter as limitações da humana condição. Bem o disse o grande teólogo francês Yves Congar que me defendou no "La Croix"(08.09.84): "O carisma do poder central do Vaticano é o de não ter nenhuma dúvida. Ora, não ter nenhuma dúvida é, a um tempo, magnífico e terrível. É magnífico porque o carisma do centro consiste precisamente em permanecer firme quando tudo ao redor vacila. E é terrível porque, em Roma, estão homens que têm limites de toda espécie, em sua inteligência,no seu vocabulário, em suas referências e no seu ángulo de visão. E pesaram contra Boff". Mas recuso-me a vê-los na ótica do Grande Inquisidor. Do seu jeito, pretendem também eles servir à verdade. No fim, cabe a ela e não a eles a última palavra. 

A Roma fui e voltei como teólogo católico. Nenhuma doutrina foi condenada, só "opções que põem em perigo a fé cristã". Mas opções pertencem à ética, não à doutrina. Sou consciente de que nisso tudo fui mero servidor. Fiz aquilo que simplesmente devia fazer, como cabe a um servidor.


Leonardo Boff, Artigo publicado no Jornal do Brasil em 10 de Setembro de 2004; in Artigos, www.leonardoboff.com

16 de abril de 2008

Síntese da Fé Católica - Apresentação


Eis um texto breve sobre a fé cristã,
Intencionalmente, ficou-se naquilo que parece essencial. Quase diríamos: o essencial do essencial. O núcleo, por assim dizer. O de hoje e de sempre - imutável, irredutível.
Publicar um resumo da fé, sem dúvida é temerário, tendo em conta o coeficiente pessoal e o carácter sistemático que afectam inevitavelmente este género de ensaio. No entanto, fazendo eco ao pedido premente de numerosos fiéis, teólogos eminentes fazem votos que ele apareça, ou propõem até esboços de como deveria ser.
No ano da fé, deve correr-se o risco. Pelo menos, procurar-se-à não apresentar, sob pretexto de se limitar ao essencial, uma doutrina diminuída. Trata-se de «concentração» (o termo é do P. Rahner) ou de «reestruturação» (expressão do P. Congar); de modo algum de redução.
Não se sublinham os traços novos do rosto histórico da fé, muito embora se esteja convencido da necessidade de tal «novidade», como condição de fidelidade. Nem sequer se tem em conta o que se chamou «aggiornamento». Não se menciona, senão de passagem, a mudança da civilização, o prodigioso poder da ciência, a crescente capacidade do mundo para resolver os seus problemas sem, para tal, fazer apelo a um além. Sobre estes temas, bem importantes por certo, a literatura religiosa actual é abundante. Por vezes até em excesso, quando não evita dar o flanco a acusação de oportunismo. «O mundo de hoje - dizia Camus - reclama dos cristãos que permaneçam cristãos».
Sobretudo: deixam-se de lado os aspectos marginais da fé, mesmo algumas verdades certamente dogmáticas, mas «segundas», relativamente aos fundamentos. Do ponto de vista da ortodoxia, não há nisto dificuldade alguma, visto quer o próprio Concílio Vaticano II afirma: «Há uma ordem ou "hierarquia" das verdades da doutrina católica , em razão da sua diversa relação com os fundamentos da fá cristã». Em compensação, a vantagem do ponto de vista da fé salta aos olhos. É sabido como muitos homens de boa vontade acham longo e complicado o que pensam dever saber e compreender para se poderem dizer crentes. Mesmo o catecismo mais reduzido é ainda demasiado complicado e longo para eles, mesmo quando se abstêm de vulgarizar - ou infantilizar - o abstracto.
Quando o essencial e o acessório são postos no mesmo plano, o acessório levanta à inteligência mais questões difíceis que o essencial.
Uma verdade mal situada constitui - indevida ou exageradamente - problema. Muitos esgotam-se aí, por vezes sem outro resultado além de um cepticismo que alastra pouco a pouco e leva à impossibilidade, de facto, de acreditar - e portanto à obrigação moral de não acreditar.
A não ser que se caia no fideísmo, verdadeiro flagelo dos tempos modernos e cujas consequências são tanto de temer relativamente à inteligência como à prática: dogmatismo por um lado, autoritarismo ou mesmo totalitarismo por outro. E também arcaísmo. O acto de crer, mais do que qualquer outro, deve ser justificado. A razão também tem parte no acto de fé. Senão, crer seria imoral, porque a consciência manda, antes de mais, obedecer à razão.

Síntese da Fé Católica - Editorial A O

9 de dezembro de 2007

Sobre a Saudade


Saudade… a ambição, a cobiça, o instinto do comércio com o impulso nómada empurrando as velas das nossas naus, a Índia ao longe, as tormentas vencidas e a nostalgia de Portugal ensombrando as paisagens da Índia conquistada: movimento pendular do coração lusíada entre a pátria e todas as Índias que se atingem e aquela Índia de miragem que não é nenhuma destas e sempre se procura e deseja, quando estas se nos deparam; incessante movimento do coração do homem entre as terras e os céus visíveis e um Céu e uma Terra que apenas se pressentem na misteriosa polarização da nossa alma.
[...]
A Índia das nossas miragens não é nenhuma das que se atingem.

Leonardo Coimbra, Sobre a Saudade

A Graça

“O estado de graça é o sentimento de presença universal.
Estar em graça é olhar o Universo daquele invisível centro de amor, que é o seio de Deus.
Estar em graça é parar suspenso no meio do ruído a ouvir vozes das bandas do Silêncio.
Estar em graça é ir devagar na Solidão a conversar com o invisível, a encher de humanas palavras amorosas todo o Espaço sem voz.
Na Solidão e no Silêncio, ali onde a nossa atenção se volta no sentido do oculto, a Graça tece, de tenuíssimos e misteriosos fios, as ligações que prendem a multidão rumorosa, medita o verbo, que é o pão e o amor de todas as bocas.
E a Graça, em excessivo além dos sentidos, é simplesmente a absoluta e infinita presença. Enche a Solidão e Silêncio, mas de presença inefável, universal contacto amoroso, onde as formas se diluem e a comoção interior é a fremente quietação dum beijo sem lábios.
Tão para além dos sentidos, tão pura presença é a graça que todo o movimento se encerra, e a plena posse é, agora, o perfeito e absoluto contacto.
É a serenidade em subtil e invisível corpo de amor, vagueando no Silêncio e na Solidão.
De tudo o que para nós é a vida, resta a Presença, sem formas, nem limites… Tocada a Presença, logo a solidão se faz companhia!
Essa presença é o Amor, e, por isso, o seu corpo subtil é de femininas formas, delicado e etéreo. A Graça nós a vemos, para além dos olhos, imponderável corpo de Mulher, vagueando na imensa Solidão do Espaço.”

Leonardo Coimbra, "A Alegria, a Dor e a Graça" in "Obras Completas", Vol. III, págs. 200-201, Lisboa, UCP/INCM, 2006

26 de novembro de 2007

O Cego de Maio


Conheceis o Cego de Maio?
Foi um poveiro. Era um Neptuno baptizado. Não era o tridente a arma com que comandava as ondas, mas a sua alma plena dum superior destino.
Sabei que aos gritos de socorro que o náufrago erguia num clamor anónimo, respondia no seu coração um eco de lembranças piedosas, de orfandades, de viuvezes, e na sua alma nascia o direito de emendar a existência, a certeza da sua superioridade de comoção sobre a bruteza do oceano convulso.
E num barquinho ele se partia, assaltado pelas ondas, guardado pela certeza da sua missão...
Voltava coberto de espuma, a sua alma era a Alegria do dever omnipotente.
Esse herói era sereno, duma mansidão patriarcal.
Certo dia, um pescador importunou-o a ponto do Cego lhe prometer castigo.
Um filho do importuno, puxando-lhe pelo casaco, disse – Cego, não batas no meu paizinho…
O herói tomou a criança, beijou-a e largou a fugir precipitadamente…
Não conheço gesto humano que tanto valha, quer dizer, que tão claramente exiba a divindade dramática do homem.
Há frases, isto é um acto.
Nunca a carne foi tão nitidamente pensamento, ansiedade metafísica.
Homens houve que souberam pôr, em concreto, a alma acima do corpo.
Sob os olhos da Alegria originária, da unidade amorosa, aqui, é na própria carne que se passa o drama, é ela que actua este pensamento: foge à tentação, foge de ti mesma…
Maravilhoso exemplo de complexidade das relações entre o ser e a aparência: o herói quer em si a alma infantil a que obedece e vê que só na ausência do corpo ele possuirá a sua presença.Quem ensinou a este rude pescador a dialéctica da aparência e da realidade?
E, no entretanto, onde a aparência inverte, ele sabe, em carne e osso, refazer a realidade!
As recônditas harmonias das cousas descobertas pelo pensamento, as harmonias do pensamento e das cousas, o mundo resolvendo-se em teorias científicas, a ciência adivinhando o mundo, tudo é ultrapassado pela simples atitude dum humilde homem do mar, que quer estar de acordo com uma criança!

Leonardo Coimbra, "A Alegria, a Dor e a Graça" in "Obras Completas", Vol. III, págs. 46-47, Lisboa, UCP/INCM, 2006

20 de novembro de 2007

Agostinho - Confissões


E, admoestado a voltar daí para mim mesmo, entrei no mais íntimo de mim, guiado por ti, e consegui, porque te fizeste meu auxílio. Entrei e vi com o olhar da minha alma, seja ele qual for, acima do mesmo olhar da minha alma, acima da minha mente, uma luz imutável, não esta vulgar e visível a toda a carne, nem era uma maior como que do mesmo género, como se ela brilhasse muito e muito mais claramente e ocupasse tudo com a sua grandeza. Ela não era isto mas outra coisa, outra coisa muito diferente de todas essas, nem tão-pouco estava acima da minha mente como o azeite sobre a água, nem como o céu sobre a terra, mas era superior a mim, porque ela própria me fez, e eu inferior, porque feito por ela. Quem conhece a verdade, conhece-a, e quem a conhece, conhece a eternidade. O amor conhece-a. Oh, eterna verdade e verdadeiro amor e amorosa eternidade. Tu és o meu Deus, por ti suspiro dia e noite. E logo que te conheci, tu arrebataste-me para que eu visse que é aquilo que via e que eu não era ainda de molde a poder ver. E deslumbraste a fraqueza do meu olhar, brilhando intensamente sobre mim, e estremeci de amor e horror: e descobri que eu estava longe de ti, numa região de dissemelhança, como se ouvisse a tua voz vinda do alto: «Eu sou o alimento dos adultos: cresce e comer-me-ás. Tu não me mudarás em ti, como o alimento da tua carne, mas tu serás mudado em mim.» E reconheci que por causa da iniquidade corrigiste o homem e fizeste consumir-se a minha alma como uma aranha, e disse: «Porventura nada é verdade, já que ela não está difundida pelos espaços dos lugares, nem finitos nem infinitos?» E tu clamaste de longe: «Pelo contrário eu sou o que sou.» E ouvi, tal como se ouve no coração, e já não havia absolutamente nenhuma razão para duvidar, e mais facilmente duvidaria de que vivo do que da existência da verdade, a qual se apreende e entende nas coisas que foram criadas.

19 de novembro de 2007

A natureza do direito - 2


A existência humana é ontologicamente social, não obstante todos os conflitos entre o homem e a força impessoal do campo social, em que ele existe como uma parte. A existência na sociedade, por força do nascimento e educação numa família, é ontologicamente, não por escolha, a maneira da existência humana. A alternativa à existência numa sociedade concreta – além de não ter nascido de todo, ou de ter cometido suicídio – não é a existência solitária, mas a existência numa outra sociedade concreta. A organização da vida pessoal do homem em sintonia com a verdade da ordem apenas é possível dentro da estrutura da ordem social. Uma sociedade tem uma raison d’être, por conseguinte, apenas na medida em que ela permite aos seus membros ordenar as suas vidas na verdade.
Eric Voegelin

18 de novembro de 2007

Comunidades cristãs saudaram Dalai Lama

Vossa Santidade,

É uma honra para mim, dirigir-me a vós em nome das comunidades cristãs em Lisboa. Elas estão aqui representadas pelos Pe. Alexandre Bonito, da Igreja Ortodoxa, Pe. Diamantino Lemos, da Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana), Dr. David Valente, Secretário Geral da Igreja Presbiteriana, e eu próprio, da Igreja Católica. Desejo-lhe as mais calorosas boas-vindas, da parte do Cardeal Patriarca, D. José Policarpo, que se recorda com amizade do vosso ultimo encontro, aquando da vossa última visita, em 2001.

1. A vossa presença aqui - este encontro de representantes de várias tradições religiosas na mesquita central de Lisboa - é um notável sinal dos tempos em que vivemos. As coisas mudam com grande velocidade. E estas mudanças trazem consigo medo e insegurança para alguns, e entusiasmo para outros que buscam algo de novo. Penso que este encontro apela a ambas estas tendências, dentro das nossas comunidades. Reconhecemos as nossas diferenças. Elas são por vezes profundas e significativas. Não desejamos escamoteá-las. Cada uma das nossas tradições é uma peça única do nosso património cultural mundial, trazendo com ela séculos de sabedoria e espiritualidade. Mas, apesar de todas as nossas diferenças, tensões e, por vezes, inimizades, fomos capazes hoje de dar uns aos outros a mão da amizade, e de exprimir o nosso compromisso comum com a construção da paz entre os povos do mundo.

2. Rezo para que as Igrejas Cristãs em geral, e a Igreja Católica em Portugal, tenham um coração terno e humilde, para que sejamos capazes de acolher entre nós, como irmãos e irmãs em Deus, todos os imigrantes que buscam uma vida melhor, qualquer que seja a sua religião. Desejo que sigamos o caminho da rectidão.

3. Rezo também para que Vossa Santidade seja abençoada, e que o vosso coração esteja sempre pleno de luz. Que a paz esteja convosco e com o vosso povo no Tibete.

Discurso feito na Mesquita Central de Lisboa, pelo Padre Peter Stilwell

Ciência versus Religião por Sto Agostinho

Quando me apercebo de que um cristão, este ou aquele irmão, ignora essas coisas e as confunde umas com as outras, ouço pacientemente esse homem a expor a sua opinião e não vejo em que lhe é prejudicial se não sabe, porventura, o lugar e o modo de ser da criatura corporal, desde que não creia em coisas indignas a teu respeito, Senhor, criador do universo. Prejudica-o, porém, se pensa que isto pertence à essência da doutrina da piedade e ousa afirmar pertinazmente aquilo que ignora. Mas mesmo tal enfermidade é suportada pela mãe caridade no berço da fé, até que o homem novo chegue ao estado de homem perfeito e não possa ser arrastado pelo vento de qualquer doutrina.
Santo Agostinho, Confissões, Livro V, V. 9

9 de novembro de 2007

Admitir o óbvio

De todos os lados da sociedade dita laica, se ataca e menospreza o papel da religião e da Igreja Católica. Sabe bem de vez em quando ler o que os muitos católicos já sabem... o papel da Igreja é crucial.

Aqui fica um trecho da notícia no DN de hoje sobre o papel da Igreja nas emergências e na assistência aos mais necessitados.

Em 1998, durante o conflito na Guiné-Bissau, a Igreja Católica foi, durante
algumas semanas, a única organização a funcionar de forma eficaz, em vários
pontos do país. A actuação dos religiosos, nessa altura, salvou numerosas vidas,
sobretudo de crianças, o elo mais fraco nestes conflitos.

8 de outubro de 2007

Birmânia


O mundo inteiro rende-se à determinação dos monges budistas na luta pela democracia e pela libertação do povo Birmanês das garras de uma ditadura que andou demasiado tempo esquecida dos telejornais do mundo.

Os suspeitos do costume, a China ateia comunista e a Rússia de senhorial de Putin estão a impedir a aprovação de decisões mais duras no Conselho de Segurança, não porque verdadeiramente acreditam numa solução pacífica, mas porque tem consciência que não se pode abrir precedentes para serem alvos de acusações idênticas.

O Papa já veio pedir especial atenção por parte das instituições internacionais e a Pax Christi, Movimento Católico Internacional para a Paz, fundado em França em 1945 com o objectivo de encorajar a reconciliação e a paz no seio das nações feridas pela II Guerra Mundial, já fez chegar uma carta ao Secretário-geral das Nações Unidas, onde expressou a sua profunda preocupação relativamente à escalada de violência em Myanmar, e à situação dos manifestantes não-violentos.

Em regimes democráticos, sou apologista não só da separação da Igreja e do Estado mas também do distanciamento da Igreja da vida civil e governamental. A opção política de cada cidadão deve ser livre, consciente e sem abusos de influências. De um modo geral, estou em crer que no presente, a Igreja Católica em Portugal tem uma postura bastante salutar e aberta. Não se queira é pedir que a Igreja não exerça influência naqueles que livremente decidem fazer parte dela e ou que não possa opinar sobre o mundo de que faz parte e denunciar situações de abuso e injustiça ou que simplesmente não concorda. A isso se chama democracia.

Por isso mesmo, em casos como o que se vive hoje em dia na Birmânia acredito que a religião deve ter um papel activo e preponderante na salvaguarda da liberdade, dos direitos fundamentais do homem e da democracia. Por isso só posso aplaudir esta ingerência dos monges budistas birmaneses. Religião que não defenda estes valores está enganada e deve fazer por corrigir. Se tivesse havido mais D. Antonios Ferreira, de certeza que a imagem da Igreja hoje era diferente.

Apesar das demasiadas vezes que historicamente vimos a Hierarquia da Igreja Católica premiscuamente ao lado dos ricos e dos opressores, há que lembrar que foi o Cristianismo que ajudou a rasgar a cortina de ferro e que em muitos outros momentos da História mundial havia um padre anónimo que dava a sua vida pelo mais fraco e pelo mais pobre. Quem me dera a mim que pudesse ver mais vezes a Igreja Católica ter coragem de sair à rua como estes monges budistas o estão a fazer para defender causas como estas.

A título de curiosidade, dos grandes críticos da dita “permissividade” e do tratamento privilegiado dos governantes portugueses com que o clero português ou daqueles que abanam bandeiras contra a religião e insultam slogans de que esta é sinónimo de falta de liberdade, de opressão e ignorância só silêncio...

Palavras para quê, não é?
Em comunhão

30 de setembro de 2007

Existe um velho provérbio húngaro que diz que na cova do lobo não há ateus, por isso julgo que não existe quem não acredite. O nada não existe na física ou na biologia e quando se lêem os grandes físicos entende-se como eram homens profundamente crentes, que chegaram a Deus através da física e da matemática e que falavam de Deus de uma maneira fascinante. A minha relação é a de um espírito naturalmente religioso, cada vez mais, não no sentido desta ou daquela igreja mas porque me parece que a ideia de Deus é óbvia. Cada vez mais o é para mim. É um bocado como diz Einstein, quando afirma que Deus não joga aos dados.

É claro que me zango com Deus porque permite o sofrimento, mas talvez os seus desígnios tenham tais profundezas que não atinjo. O sofrimento sempre me foi incompreensível porque nascemos para a alegria. A minha atitude em relação à religião é essa, não estou a falar de igrejas, estou a falar em relação a Deus e não acredito quando as pessoas dizem que são agnósticas ou ateias. Não estou a dizer que a pessoa não esteja a ser sincera, mas dentro dela e em qualquer ponto há algo... Uma vez perguntaram ao Hemingway se acreditava em Deus e a resposta foi às vezes, à noite.


António Lobo Antunes em entrevista ao DN de 30 de Setembro de 2007

6 de setembro de 2007

Diálogo Inter-Religioso

Um artigo deveras interessante sobre o tema pode ser lido no Filosofix II:

Quem é cristão? Reflexões para o diálogo inter-religioso.

E já agora dêem uma boa vista de olhos pelos demais artigos.