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16 de maio de 2008

Roma locuta

O processo doutrinário contra o livro Igreja:carisma e poder (Record, 2004 com as atas do processo) não se concluiu com o "diálogo" com o Cardeal inquisidor. Faltava ainda a palavra final do corpo de Cardeais e do Papa. E esta veio em maio de 1985, quando subitamente apareceu na portaria do Convento de Petrópolis onde ensinava, um representante do Núncio Apostólico de Brasília. Entregou-me um livreto, impresso na Poliglota Vaticana: "Notificação sobre o livro Igreja: carisma e poder, ensaios de eclesiologia militante". E disse-me: enquanto rezo na igreja ao lado, leia o texto. Depois conversaremos. Li com vagar. Pareceu-me um pastiche de frases, tiradas daqui e dali, formando um sentido que não reproduzia meu pensamento. Veio o representante do Núncio e me perguntou: aceita ou rejeita o texto? Eu lhe disse, sereno: aceito, porque não sou eu que está ai dentro. Há afirmações que eu também condeno. Mas aceita? insistiu. Condenando, aceito, disse eu. Graças a Deus, suspirou ele. E eu: por que tantas graças a Deus? Porque se não acolhesse o texto, confessou, teríamos um grave problema eclesial e eu lhe imporia as penas canônicas contidas neste envelope.

Com isso esperava que tudo tivesse terminado. Qual não foi a minha supresa quando dias após, por telefone, um alto funcionário do Vaticano me ditava as penas: deposição da cátedra de teologia, de editor da Vozes, de redator da Revista Eclesiástica Brasileira e a imposição de "silêncio obsequioso" por tempo indeterminado pelo qual não poderia falar em público nem publicar mais nada. Firmado no direito canônico, apenas respondi: só acatarei as penas quando o documento oficial chegar às minhas mãos. Demorou 20 dias.

Bispos importantes fizeram-me entender: o problema era mais político que doutrinário. Tratava-se de frear a CNBB em seu ímpeto libertador e eu era apenas o pretexto. Por isso pensadamente declarei: "Prefiro caminhar com a Igreja que, sozinho, com minha teologia". Teria afastado um golpe contra a CNBB e poupado as CEBs e a teologia da libertação.

Depois de onze meses, devido às muitas pressões sobre o Papa, na noite de Páscoa de 1986, fui liberado do silêncio obsequioso e das demais restrições. Livre, continuei minhas múltiplas atividades. Até que durante a Eco-92 no Rio de Janeiro, foi-me comunicado pelo Cardeal Baggio e pelo Geral da Ordem Franciscana que novamente deveria me submeter ao silêncio obsequioso e renunciar ao ensino da teologia. Deveria sair do país e do Continente. Foram-me sugeridos conventos nas Filipinas ou na Coréia. Mesmo lá deveria guardar o silêncio obsequioso e as demais penas.

Pensei comigo: também para um teólogo devem valer os direitos humanos e o direito inalienável de se expressar. Em razão disto, com dor disse: troco de trincheira mas não de combate. Não deixarei a Igreja, mas uma função dentro dela. Continuarei como teólogo e escritor, com um pé no ensino e com o outro nos meios pobres e populares. Assumi a cátedra de Etica, Filosofia da Religião e de questões contemporâneas na UERJ. Em seguida passei a ensinar como professor visitante em algumas universidades estrangeiras. Mas sempre com os pés e a mente aqui, meu campo de ação.

Passados vinte anos, confesso que me esforcei muito para que minha alma não ficasse pequena, consoante o que cantou o poeta: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena". 

Leonardo Boff, Artigo publicado no Jornal do Brasil em 1 de Outubro de 2004; in Artigos, www.leonardoboff.com

15 de maio de 2008

Na sala da ex-Inquisição

Os fatos objetivos sempre vêm revestidos dos sentimentos daqueles que os vivem. Como senti eu os eventos de meu processo na ex-Inquisição em Roma em 1984?

Pontualmente às 9.00 horas oficiais do Vaticano vieram me buscar. Antes mesmo de me despedir de meu Superior, me agarraram e me empurram para dentro do carro que saiu em disparada até o Vaticano, próximo daí. Senti-me como alguém sequestrado pelas "brigatte rosse".

Escoltado por guardas suiços, fui conduzido ao elevador. No andar de cima, outros dois guardas me esperavam com o Cardeal Inquisidor, Joseph Ratzinger todo paramentado de cardeal e eu com o simples burel. Saudei-o em bávaro para desanuviar a tensão. Mas imediatamente fui conduzido por um longo salão de uns cem metros todo acarpetado, com paredes repletas de quadros renascentistas. No fim, uma pequeníssima porta. Mal podia passar. É um sala pequena, cercada de livros,com minúsculo pódio onde se sentam o inquisido e o inquisidor. Abaixo, o notário anota tudo. Sem delongas começa o trabalho. Eu atalho o Cardeal e lhe digo: Sr. Cardeal, no meu pais somos ainda cristãos; em coisas sérias invocamos Deus. Ao que o Cardeal, surpreso, inicia ritualmente a recitação do Veni Sancte Spiritus. Para uma visão jurídica da Igreja, Deus realmente sobra. Comecei a ler o que havia preparado. O Cardeal fez apenas duas interrupções. Uma para saber o que era uma Comunidade Eclesial de Base que ele imaginava uma célula comunista onde se preparavam os militantes porque ai se fala sempre em luta. E outra com a qual estou em disputa com ele até os dias de hoje. Afirma ele: só na Igreja Católica se encontra a Igreja de Cristo. Nas outras há apenas elementos, como portas e paredes mas não chegam a formar uma casa. Por isso não são igrejas nem devem, de direito, ser assim chamadas. Coisa que considero ofensivo, arrogante e simplesmente errôneo face à Tradição.

Houve pausa de café no grande salão. De todos os lados, vinham funcionários com o seu exemplar do livro condenado Igreja: carisma e poder pedindo autógrafos, coisa que irritou sobremaneira o Cardeal. Em todos escrevi a mesma coisa:"Conserve a herança de Jesus, a liberdade, conquistada não com palavras mas com o próprio sangue". A sós, o Cardeal e eu olhávamos as telas, até pararmos diante de uma enorme com um São Francisco, todo lascado, mas transfigurado no alto. No chão, de joelhos, o Papa com a tríplice coroa na cabeça. Eu disse ao Cardeal: eis o símbolo da Igreja que defendemos,dos pobres, figurada por S. Francisco e o Papa de joelhos a seu serviço. E o Cardeal: você, teólogo da libertação, politiza tudo; aqui temos uma obra de arte e não uma peça de teologia. Ao que lhe disse apontando para as grandes janelas quadriculadas de ferro: o Sr. não tem olhos para a teologia da libertação porque vê o mundo dos pobres por aquelas janelas quadradas por onde não chega seu grito.

Tivemos mais uma hora de trabalho. No final um encontro com os dois cardeais brasileiros Arns e Lorscheider que vieram me apoiar. Dom Arns foi logo direito: Sr. Cardeal Ratzinger, não gostamos de seu documento sobre a teologia da libertação. Pedimos um outro que faça justiça às igrejas que tomam a sério a opção pelos pobres e por sua libertação. Ao construir uma ponte o Sr. não chamou um engenheiro mas um gramático. Convide nossos construtores e eles o ajudarão a fazer uma boa teologia da libertação, útil à toda a Igreja.

Leonardo Boff, Artigo publicado no Jornal do Brasil em 24 de Setembro de 2004; in Artigos, www.leonardoboff.com

14 de maio de 2008

Na cadeira de Galileo Galilei


No dia 7 de setembro [de 2004] serão 20 anos em que sentei na cadeirinha onde sentou também Galileo Galilei e Giodano Bruno no Palácio do Santo Ofício (ex-Inquisição) em Roma para defender opiniões do meu livro Igreja: carisma e poder. Ser convocado à presença da mais alta instância doutrinária da Igreja não é um fato corriqueiro na biografia de um teólogo. Reportando-me ao poeta chileno Pablo Neruda, é certamente memorável e, ao mesmo tempo, dilacerador encarnar, por um momento sequer, a razão e o destino de toda uma caminhada de pensamento e de prática eclesial com os pobres. 

Subjetivamente é muito oneroso sentir o peso da instituição milenar da Igreja caindo sobre sua cabeça. Mais penoso ainda é sentir os limites desta instituição, pois, percebe que não raro, ela está mais interessada na segurança do que na verdade, mais na manutenção da própria imagem do que servir à causa dos humilhados e condenados da Terra.

Passados vinte anos, vejo que houve aí algo providencial. O fato foi noticiado e comentado nos principais órgãos de comunicação do mundo. Por aí, a opinião pública pôde entrar em contacto com um outro tipo de Igreja, destituida de poder, simples e profética, que faz corpo com os pobres e que, por isso, participa também da maledicência e da perseguição que padecem. Pôde conhecer também uma teologia que coloca a vida no centro, feita no sentido da libertação histórico-social dos oprimidos e não apenas para a edificação interna da galáxia eclesial. A teologia da libertação virou assunto de conversas nas ruas, nos bares e em rodas de intelectuais. 

A opinião públicou captou a dimensão ética da libertação: ela concerne às grandes maiorias sofredoras da humanidade. Entendeu a argumentação básica: os cristãos, pelo fato de serem seguidores do Nazareno, torturado e morto na cruz, são urgidos a serem agentes de libertação. É possível uma teologia que nasça deste compromisso, fiel à grande Tradição e articulada contra a injustiça social e em favor de mudanças estruturais. A imagem de Deus que daí surge, é compreensível por todos: Deus está mais interessado na justiça que no rito, mais ligado ao grito do oprimido que às louvações dos piedosos. São as práticas e não as prédicas que contam.

Por fim, por mais que as autoridades se considerem "Eminências Reverendissimas" não deixam de ter as limitações da humana condição. Bem o disse o grande teólogo francês Yves Congar que me defendou no "La Croix"(08.09.84): "O carisma do poder central do Vaticano é o de não ter nenhuma dúvida. Ora, não ter nenhuma dúvida é, a um tempo, magnífico e terrível. É magnífico porque o carisma do centro consiste precisamente em permanecer firme quando tudo ao redor vacila. E é terrível porque, em Roma, estão homens que têm limites de toda espécie, em sua inteligência,no seu vocabulário, em suas referências e no seu ángulo de visão. E pesaram contra Boff". Mas recuso-me a vê-los na ótica do Grande Inquisidor. Do seu jeito, pretendem também eles servir à verdade. No fim, cabe a ela e não a eles a última palavra. 

A Roma fui e voltei como teólogo católico. Nenhuma doutrina foi condenada, só "opções que põem em perigo a fé cristã". Mas opções pertencem à ética, não à doutrina. Sou consciente de que nisso tudo fui mero servidor. Fiz aquilo que simplesmente devia fazer, como cabe a um servidor.


Leonardo Boff, Artigo publicado no Jornal do Brasil em 10 de Setembro de 2004; in Artigos, www.leonardoboff.com