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20 de março de 2007






BAKUNIN

§ 1. Reacção e Revolução


Mikhail Bakunin (Pryamukhino, Rússia, 1814 – Bern 1876) foi um revolucionário cujas teorias contribuíram para o desenvolvimento do conceito de anarquismo, utilizando conceitos e linguagem retirados do léxico cristão. Podemos considerá-lo em certa medida como herdeiro do pensamento milenarista.

Bakunin considera que a “democracia é uma religião” e que os cidadãos se terão de tornar religiosos e que terão de aplicar esses mesmos princípios na vida quotidiana.

É evidente que estas ideias de Bakunin sobre a existência revolucionária democrática trazem as marcas do passado cristão. Conhecemos a escatologia do "povo de Deus." "a reversão total do estado do mundo" vem das novas “tábuas da lei” no Antigo Testamento; a "revelação, viva e vivificante " que traz "um céu novo e uma terra nova" é um anúncio messiânico; a distinção entre agitar ideias e realizá-las na "vida concreta" reflecte a metanóia cristã; "a vida original, nova" é a renovatio Evangelica. Toda a atmosfera de uma nova revelação iminente lembra as expectativas dos sectários ingleses do séc. XVII sobre o "Deus que virá” estabelecer o reino na terra.
Além desta estrutura formal da escatologia cristã, há uma outra continuidade com o cristianismo. A "liberdade do espírito" evocada é uma realização final do espírito cristão. Bakunin vê a luta pela liberdade como inerente à cristandade católica primitiva. O princípio da liberdade é "a fonte de todas as heresias". Em geral, a libertação das cadeias que oprimem os espíritos livres é o significado da história. Da liberdade nasceu a heresia vitoriosa do Protestantismo, inerente ao Catolicismo primitivo até se tornar independente. O presente atingiu uma nova época crítica, um futuro além do Catolicismo e do Protestantismo.

Sendo o Catolicismo uma “glória ultrapassada” e o Protestantismo “uma anarquia de seitas” vem Bakunin, (como um novo S. João Baptista – na expressão de Voegelin) propor criar o terceiro reino da liberdade: “Sabeis que, de acordo com o seu destino final, a humanidade só encontrará paz e serenidade num princípio universal prático que unifique poderosamente a miríade de manifestações da vida espiritual” (in “A reacção na Alemanha”)

Este princípio universal prático é uma religião sem Deus: é criada a partir do homem e a salvação vem do espírito do homem. Mais concretamente do espírito de Bakunin, ao mesmo tempo profeta e “dux”, autor dos escritos (sagrados?) que conduzem o seu povo (as massas) para o terceiro reino da liberdade.

Religião sem Deus que porém se obriga a uma das máximas do Cristianismo: "Só nós, que somos apelidados de inimigos da religião cristã, podemos e devemos praticar o amor concreto mesmo na luta mais calorosa, o mandamento mais elevado de Cristo e a essência da verdadeira Cristandade." (in “A reacção na Alemanha”)

Em resumo, identificamos em Bakunin: (1) a ausência de uma ideia positiva da ordem, (2) a identificação da liberdade com "a paixão alegre da destruição" (3) a descoberta das "massas" como agente histórico de destruição.
Pessoalmente, considero que Bakunin se via a si próprio como um novo Moisés: Ele é aquele que vai levar o seu povo – as massas – para a Terra Prometida – o terceiro reino depois do Cristianismo e do Protestantismo.

“Deus sabe onde me conduzirá. Eu sinto somente que nunca abdicarei dos meus passos e que nunca serei desleal às minhas convicções. Nisto reside toda a minha força e dignidade; Esta é a minha Confissão.” (Carta a Annenkov, Bruxelas, 28 de Dezembro de 1847).

Tal como Moisés não irá entrar na Terra Prometida. O revolucionário (ou profeta ou dux) descobre o caminho – a senda da destruição:
A destruição é o trabalho de uma geração de sacrifício; os revolucionários só podem destruir; a edificação "de um mundo novo e glorioso em que todas as dissonâncias actuais serão dissolvidas na unidade harmoniosa" fica para os que virão depois.

§2.A Confissão de Bakunin

Em 1851, Bakunin encontra-se preso na fortaleza de Pedro e Paulo a aguardar a deportação para a Sibéria, quando foi convidado pelo Czar a escrever uma Confissão dos seus pecados.

Obra complexa, a Confissão denota contradições nela mesma, e contradições com cartas secretas que enviou da prisão: os sentimentos de Bakunin são complexos; a carta secreta mostrava o rebelde, a Confissão é um misto de sinceridade e arrependimento.

Nota-se ali uma certa admiração pelo Czar: No artigo Reacção em Alemanha, de 1842, Bakunin distinguiu entre dois tipos de reaccionários; os consistentes e os comprometidos, ou mediadores. Despreza os segundos mas admira os primeiros.

Obviamente considera o Czar um reaccionário consistente. Aliás escreve nas Confissões: "Apesar das minhas convicções democráticas, adorei-vos profundamente nos últimos anos, contra minha vontade. Não só eu mas muitos outros, Polacos e Europeus em geral, compreenderam como sois o único, entre as cabeças coroadas, que preservou a fé na vocação imperial."

Bakunin nunca se arrependeu da sua existência revolucionária; arrependeu-se da futilidade dos seus esforços.

Esta desilusão tem muito a ver com o crescimento de grupos e seitas secretas comunistas na década de 40 do séc XVIII: para ele o comunismo era um sintoma de deterioração social, mas não o caminho de salvação que preconizava.

Atribuía ao crescimento do comunismo um instinto de revolta das massas contra a sociedade do seu tempo.

Bakunin foi forçado à existência revolucionária para ter um campo adequado de acção. A revolução no Ocidente seria o sinal para a revolução russa onde poderia desempenhar um papel activo. A intelligentsia russa do séc. XIX cresceu como uma classe isolada porque a ordem social e política (elogiar o governo chegou a ser considerado uma insolência subversiva) não deixava espaço para a acção construtiva de homens com inteligência, temperamento, instrução e vontade moral de reformar. É um lugar comum afirmar que um governo está em perigo quando os intelectuais estão na oposição. Mas os intelectuais não entram para a oposição por sua própria escolha mas sim porque nada mais vêem de digno para fazer. Uma ordem social alcança a fase crítica quando os homens de integridade intelectual e moral têm que se rebaixar para participar na vida pública. O insulto mais grave à personalidade humana é a negação da oportunidade que as qualidades se transformem em força activa na sociedade. Quando a corrupção afasta os membros mais valiosos da sociedade, a consequência será, conforme os tipos de personalidade, a passagem à contemplação ou a resistência activa mediante a destruição e criminalidade revolucionárias.

Bakunin move-se por uma fé voluntarista: "Só tenho um aliado: Fé! Digo a mim mesmo que a fé move montanhas, supera obstáculos, derrota o invencível e possibilita o impossível; a fé é metade da vitória e metade do sucesso; completada pela vontade poderosa cria as circunstâncias, amadurece os homens, junta-os e une-os.... Numa palavra: eu quero acreditar, e eu quero que os outros acreditem."

Trata-se, talvez, da mais perfeita descrição da mágica do mal, ou de como criar a realidade a partir de nada. A fé voluntarista opõe-se à vontade crente, do cristão. Esta "fé voluntarista" manifesta-se em Bakunin na invenção prodigiosa de sociedades revolucionárias imaginárias mas com resultados tangíveis. A fé e a imaginação entram no curso da história, criam as circunstâncias e produzem efeitos incríveis. É a primeira aparição da magia negra que regressará com a “magia radical” de Nietzsche", no persistência com que Lenine agarra o kairos e no poder e “Vitória de Fé” de Hitler.
Bakunin defende um imperialismo pan eslavista: começando por uma revolução russa pretende a grande libertação dos Eslavos (todos os territórios Eslavos e Polacos em posse da Alemanha, húngaros, romenos, moldavos e gregos com capital em Constantinopla).

No final, acabamos por ter aqui a denominada Europa de Leste, com excepção dos gregos e de Constantinopla.

Aliás chega a apelar ao Czar nas Confissões para realizar essa federação pan eslavista.

§ 3. O anarquismo

Quando a ordem política entope os canais legítimos de acção construtiva, as inteligências activas ficam num impasse. Quando se juntam a experiência da culpa pela miséria social, a vontade de reformar e a experiência de impotência, um indivíduo de moral exigente podes ser levado ao desejo de auto-sacrifício. O acto terrorista é um sacrifício em sentido duplo: o terrorista arrisca a vida fisicamente, porque será executado se for apanhado; em segundo lugar, e mais importante, o terrorista sacrifica a sua personalidade moral porque comete um assassinato.

O terrorismo como modelo moral é um sintoma da doença em que o mal assume a forma de espiritualidade.

Com Kropotkin torna-se explícita a necessidade de destruição das instituições: Ao criarem a dependência do homem, as instituições políticas e económicas transformaram-se em fonte do mal; a sua destruição por uma revolta social permitirá reconstruir a sociedade.

Esta posição esclarece a necessidade sentida por Bakunin na destruição das instituições: a luta dele contra o Cristianismo não será mais uma luta contra a instituição Igreja?

Uma terceira posição quanto ao anarquismo é a de Tolstoi: Tolstoi fundou o anarquismo numa ética cristã evangélica e achava que a salvação não resulta de uma mudança de instituições; as novas instituições não substituem a mudança do coração. A reforma não resulta de conspirações e revoluções; tem que ser efectuada por esclarecimento e persuasão, despertando as consciências, pelo exemplo de vida e, se necessário, pela resistência passiva aos mandamentos do estado não cristão.

Gandhi aproveita das ideias de Tolstoi um conhecimento da rebelião civil e resistência passiva como armas políticas contra as autoridades governamentais.

Tal como Tolstoi, Gandhi introduz a ética escatológica como uma arma política; a pequena diferença é que Tolstoi assentava o seu anarquismo no prestígio do Evangelho, enquanto Gandhi adquiriu uma auréola de santidade oriental.

§4. Fundar o reino novo

Bakunin era prodigioso a montar organizações, sobre as quais não se sabe se existiam de facto ou apenas na cabeça dele: Até que ponto essas organizações existiam realmente ou somente na sua imaginação nem sempre se pode comprovar.

Em 1868 funda a Aliança Internacional Social-Democrata que tinha como objectivo ser o Estado Maior da 1ª Internacional, sob a capa de formar um núcleo de revolucionários.

Aí choca – mais uma vez - com Marx (já chocavam no campo das ideias: Marx quer ordem / Bakunin quer destruição; Marx quer um sistema científico / Bakunin acusa-o de autoritarismo; Marx fala proletariado e sobretudo dos trabalhadores e ainda dentro destes dos operários / Bakunin refere as massas; Nos anos 60,(século XIX) quando Marx inicia a organização internacional do proletariado, Bakunin ainda escreve panfletos a glorificar o salteador russo.)

Bakunin e Marx queriam um movimento revolucionário para homens sem país, e por meio da organização revolucionária queriam criar um país para este povo desabrigado.

A ideia de um homem sem país cuja pátria é a revolução não surge entre trabalhadores; é uma projecção do intelectual isolado que se transforma em líder das massas.

Marx criou uma doutrina que servia como a escrita sagrada do apostolado; como organizador foi fraco. Lenine refinou a doutrina, e criou uma organização centralizada implacável. Como estadista aproveitou bem o seu momento, enxertando a revolução dos trabalhadores internacionais na revolução camponesa russa. Estaline constrói a revolução internacional dentro do seu povo, no que se chama por vezes o "Thermidor" da revolução russa. Mas como movimento internacional, a revolução chegara ao fim; os partidos comunistas nos países ocidentais são instrumentos do novo estado russo.

Diferente era a posição de Bakunin: Bakunin confia no carisma. Mesmo quando a concepção é ditatorial e centralista quer a transformação da personalidade. Além disso, nunca concebeu um “estado dentro do estado” que fosse o futuro núcleo do poder após um golpe de estado; criou instrumentos para a destruição das instituições existentes que, após a vitória, seriam substituídas pela vida federal livre do novo povo revolucionário.

Dado o desinteresse pelas instituições permanentes, a actividade de Bakunin move-se na atmosfera do fantástico.[…] O elemento do fantástico radica na doença do espírito que constitui a crise revolucionária e relaciona-se com a “magia radical”. Na existência espiritual saudável, a acção é moldada pela substância espiritual que pretende comunicar, transformando a substância potencial em realmente comum. Por exemplo, na República, Platão aguarda pela receptividade à sua visão mística; quando tentou concretamente fundar uma cidade modelo o filósofo rei ficou-se pelos limites da academia. Em Bakunin, a acção é determinada pela vontade de uma existência pseudo espiritual; como falta a substância orientadora a comunicar, as tentativas sucedem-se de maneira irresponsável.

Nas suas organizações Bakunin vai criar estruturas piramidais sucessivas, as quais vão ser utilizadas por Marx: a organização em pirâmide ressurge na situação revolucionária: (1) a massa da humanidade reaccionária, que não serve para nada; (2) a parte eleita da humanidade, os "trabalhadores”, que são o sal da terra; (3) os operários, que são o grupo mais avançado dos trabalhadores; (4) o partido comunista, vanguarda do proletariado; (5) o círculo interno dos líderes dentro do partido, que culmina no politburo; (6) a estratosfera dos pais fundadores, Marx e Lenin.

§ 5. O caso Nechaiev

A revolução tem um começo e um fim, a fase de destruição e a de reconstrução. O revolucionário verdadeiro não tem planos de reconstrução. Ao chegar o momento amargo da luta; "o nosso alvo é a destruição completa de todos os laços sociais." A geração actual tem que destruir as circunstâncias abomináveis em que vive; a reconstrução é tarefa reservada para forças mais puras que hão-de surgir." Para o revolucionário, é um crime contemplar o futuro nebuloso; seria um obstáculo ao curso da destruição. "Numa causa prática, seria um abuso inútil do espírito." É preciso dedicar-se à destruição permanente, num crescendo que não deixará em pé qualquer forma social. "Chamarão a isto terrorismo! Mas devemos permanecer indiferentes a esses uivos e não participar em acordos com os que estão destinados a morrer!" (in "Os Princípios da Revolução")

Bakunin sondou as profundezas da existência negativa e compreendeu o salto místico do mundo para o paraíso. A destruição total é a contrapartida intramundana da "morte para o mundo" e a santificação da vida em preparação para a graça redentora da morte. A aniquilação intramundana não liquida apenas o mundo a destruir; também absorve a personalidade do revolucionário. Para o revolucionário, a acção significa a morte para o mundo velho mas, ao contrário do cristão, não verá o paraíso futuro. O sacrifício da existência não serve a purificação e a salvação da alma; a contracção revolucionária é o clímax da busca intramundana de imortalidade. Mas o revolucionário não vive para a fama na posteridade como os estadistas do renascimento e os homens de letras; assume o papel do salvador que inverte a queda e redime o mal. Mais que um filho, é um pai; Bakunin não promete o reino de Deus no além; promete o paraíso terreno. Deus expulsou o homem do paraíso; Bakunin irá devolvê-lo.

Alguns corolários do pensamento de Bakunin:
A religião é um instrumento de degradação - deve ser removida.
A propriedade privada é um instrumento de exploração – fora com a propriedade privada dos instrumentos da produção.
A burocracia é um instrumento de opressão – fora com o salariat.
O Estado é a fonte do mal – fora com o Estado.
A autoridade em geral restringe a liberdade – fora com a teologia, a ciência institucionalizada (contra Comte), e a liderança política institucionalizada (contra Mazzini).
Insistência de Bakunin no federalismo como a lei estrutural da sociedade futura.
Se dermos ao homem a possibilidade de praticar o mal, se lhe alimentarmos a vaidade, a ambição, e a cupidez à custa de outro, o homem praticará o mal.

O Satanismo de Bakunin

A primeira ideia de Dieu et l'Ètat e do apêndice ao Fantome Divin é a inversão satânica da Queda. Bakunin inverte toda a narrativa do Génesis: "Deus quis privar o homem da consciência de si; quis que ele permanecesse eternamente um animal de quatro patas, prostrado perante Deus eterno, seu criador e mestre. Mas então veio Satã, revolucionário, o eterno revoltado, o primeiro “libre penseur” e emancipador do mundo. Envergonha o homem pela sua ignorância e obediência bestial; emancipa-o e imprime-lhe na fronte o selo da liberdade e da humanidade, persuadindo-o a desobedecer e comer o fruto do conhecimento." E Bakunin continua: "O homem é emancipado (…) A história do desenvolvimento humano foi iniciada pela desobediência e o conhecimento (ciência), ou seja, pela revolta e pelo pensamento.”

Até ao fim, Bakunin recusa definir qualquer lei ou ideia articulada da sociedade. A ordem é determinada por sucessivos acordos da alma individual revoltada com os sentimentos das massas. A liberdade permanece em tensão entre a revolução contra a autoridade e a imersão no povo. Nas últimas obras, Bakunin recorre frequentemente à imagem do fluxo da natureza: a humanidade na história é um mar em movimento e o homem está na crista da onda. Talvez este misticismo final da revolução como imersão no fluxo natural da humanidade seja especificamente russo. Mas a última palavra de Bakunin é idêntica à primeira em 1842: o “retorno interno” deve ser substituído pela revolução política; a orientação espiritual pelos "interesses reais" das massas; e a renovação da alma pela imersão na revolução popular.

Nota: todos os itálicos sem indicação de obra ou autor são do livro e capítulo em análise.

Uma leitura de Eric Voegelin “A Idade Contemporânea”, Livro 26, Cap.4 - Existência Revolucionária: Bakunin

8 de novembro de 2005

O pensamento cristão - diálogo com o mundo

1 - Originalidade da proposta cristã: a Salvação é para todos, não só para um grupo de eleitos.
O Cristianismo é uma religião para todos, por isso universal, por isso católica.
Não se reduz, nem de forma alguma se pode reduzir a um qualquer grupo “especial”.
O Povo de Deus é uma multidão que tem de comum o apelo de Deus.
De diferente tem a resposta de cada um na sua individualidade ao mesmo apelo.
Mas aquilo que é oferecido ao Povo de Deus, independentemente da resposta que der ao apelo divino, é a Salvação, a Comunhão com Deus.

a) Esoterismos e cia: a religiosidade do pronto a servir
Não há lugar no Cristianismo para mensagens secretas só para alguns eleitos.
A mensagem é universal e vai sendo adaptada a todos os povos, mantendo sempre o essencial do essencial.
Por esse motivo se distingue desde logo de todas as tentativas de criar uma religião com alguns “eleitos”; igualmente se distingue das pseudo-igrejas “a la carte”, as quais fazem uma escolha daquilo que querem, rejeitando o resto.
O essencial da religião cristã não é parcialmente descartável. Nem se pode escolher por parcelas.

b) Proposta de vida para todos
O Cristianismo é uma proposta de vida para todos. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” Jo 10,10
Diz o Evangelho de S. Mateus:
“Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; 15nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. 16Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu.» Mt 5,14
Este é o “moto” deste Grupo de Evangelização.
A proposta radical que nos faz é a da evangelização com o nosso exemplo.
Com as nossas obras.
Dentro do nosso mundo, nos nossos locais de trabalho, na nossa família, junto dos nossos amigos e conhecidos.
Ser a luz do mundo significa estar com a Verdade, não com as modas.
Independentemente do que isso em cada momento representa, é a nossa única opção.
Kant chamar-lhe-ia o nosso imperativo categórico.

c) Não é uma Igreja para os “perfeitos”
Existe uma ideia, errada, de que a Igreja é um grupo de pessoas perfeitas. Seria bom que o fosse, talvez.
Mas a realidade é que a Igreja é um conjunto de Santos e de pecadores. E todos têm o seu local na Igreja.
E na verdade, quantos Santos conhecemos que não tivessem sido pecadores?
Nem aliás a função da Igreja seria essa. Diz o Evangelista Lucas (Lc 5,30 – 32)
30Os fariseus e os doutores da Lei murmuravam, dizendo aos discípulos: «Porque comeis e bebeis com os cobradores de impostos e com os pecadores?»
31Jesus tomou a palavra e disse-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os que estão doentes. Não foram os justos que Eu vim chamar ao arrependimento, mas os pecadores.»
Não existe aqui um grupo de eleitos ou de perfeitos, mas sim a Salvação Universal pela Graça de Deus.
Nem a Igreja faz sentido para se fechar sobre si própria ou para excluir quem quer que seja.
É junto de todos nós que a Igreja tem o seu sentido de existência.
Tentando, tal como Cristo fez, sentar-se à mesa (comungar) com aqueles que têm necessidade de Deus nas suas vidas, não os excluindo por serem pecadores. Pelo contrário, a vinda de Crista é para conduzir os homens a Deus, começando pelos mais afastados os “cobradores de impostos e os pecadores”, ou seja, nós todos.

d) Nem para os “bons”
A Igreja também não existe para os “bons”.
Quais “bons”, é questão de perguntar. Responde Cristo (Mc 10,17-18)
17Quando se punha a caminho, alguém correu para Ele e ajoelhou-se, perguntando: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» 18Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus.»
Se estamos à espera de sermos bons para nos aproximarmos ou reaproximarmos da Igreja, é melhor esperar sentado.

e) Convite à santidade
“Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste” Mt 5,48
Deus transmite-nos um convite. O convite à santidade. O convite a caminharmos para ele, nosso fim último.
Cabe-nos a nós responder a tal convite, da forma que conseguirmos.
Cada um de forma diferente, pois por isso nos criou Deus à sua imagem e semelhança, livres. Livres para voluntariamente seguirmos o caminho que nos conduz ao Pai.
Aquilo a que aquele convite nos impele é a fazermos um esforço de caminhada. E cada qual caminhará no seu passo, pelo seu próprio traçado, construindo a sua e a nossa história.
Sempre com o objectivo de caminhar para o Pai.

f) Apelo à missão
O apelo que a todos é feito, sem excepção, é um apelo à missão. (Mt 28,19-20)
19Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, 20ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.»

g) A nossa resposta
Responde Paulo qual pode ser a nossa resposta. 1 Cor 9,16
“Porque, se eu anuncio o Evangelho, não é para mim motivo de glória, é antes uma obrigação que me foi imposta: ai de mim, se eu não evangelizar!”
Esta é a nossa resposta, de homens livres, em busca da verdade.
Será possível ser livre, sem responder a esta interpelação essencial para a nossa vida?
A Verdade é Deus, o Caminho é Cristo.

2 – Abertos ao Mundo
a) A tentação de montar as tendas na montanha:
Mc 9,5”Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Mestre, bom é estarmos aqui; façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias.»
O nosso lugar é no mundo com tudo o que este tem de bom (e é muito) e com aquilo que este tem de mau.
Não é dentro de paredes que evangelizamos, mas no mundo em que vivemos.
Montar as nossas tendas à parte do mundo pode ser muito reconfortante e relaxante mas seguramente não foi esse o mandato que recebemos.
b) “Francisco, reconstrói a minha casa”: a pequena capela, a Igreja, o mundo
Tal com Francisco somos interpelados a participar na reconstrução da Igreja.
Com dois milénios de construção a Igreja necessita da nossa pequena ajuda para crescer na Fé, para evangelizar.
Aceitemos o apelo entendido por Francisco como uma interpelação pessoal a cada um de nós.
c) A ida da evangelização - frades franciscanos vão evangelizar dentro e fora.
Desde o início da sua presença em Portugal os Franciscanos começam a sua evangelização por todo o País.
d) O retorno da evangelização - após a expulsão das ordens religiosas em Portugal (1834) são os leigos que mantêm viva a religiosidade franciscana;
Apesar da expulsão das ordens religiosas em Portugal, em 1834, mantém-se presente em Portugal o carisma e a espiritualidade franciscanas.
Essa presença é particularmente assegurada pelos leigos que mantêm viva a religiosidade franciscana.
Depois de terem sido evangelizados chegou o momento de serem eles evangelizadores.
e) Francisco e o sultão: diálogo em vez de cruzadas
A abertura ao mundo é sempre realizada numa postura de diálogo.
E rejeitando sempre a violência como resposta aos problemas.


3 – Leigos batem à porta do Convento
a) Com uma proposta de evangelizar através da cultura
Um grupo bate à porta do convento, com uma interpelação a esse convento.
A proposta é a de ser esse mesmo grupo de leigos a evangelizar, através de uma área específica: a da cultura.

b) Transmitindo a sua inquietação ao convento
Ao transmitir esta sua proposta ao Convento, desencadeia no Convento uma resposta à mesma proposta.
Transmite para o Convento estas inquietações e esta nova proposta de evangelização, junto de uma área (a cultura) nem sempre de convivência pacífica com a Igreja.

c) A missão consiste em dar e receber
A resposta positiva do Convento a esta interpelação e a estas inquietações traduz-se numa reciprocidade do dar e receber entre o Convento e os leigos que permitem um esforço de evangelização conjunta para o exterior e num reforço de laços no interior.
Aqui ressaltou o entendimento que Evangelizar é um movimento de sentido duplo, não se colocando os leigos apenas como receptores e os religiosos como emissores, mas colocando ambos como receptores e ambos como emissores.

d) Não serem apenas evangelizados mas também evangelizadores
Os leigos passam assim de uma posição de mera recepção – de evangelizados – a agentes de propagação da Fé – evangelizadores – através da sua presença numa plataforma de diálogo específica.
Passam assim para o exterior uma imagem de unidade entre religiosos e leigos com uma finalidade comum: evangelizar.
Mantendo-se distintas as competências específicas de leigos e sacerdotes, entendem todos a missão de evangelizar como uma missão a que todos são chamados.

4 – A nossa proposta específica: privilegiar a Cultura como palco de diálogo
A cultura é o palco de diálogo que permite reunir pessoas que não seria fácil congregar numa linguagem de Fé.
Mas é possível congregá-los na linguagem da cultura, mostrando aí a nossa presença.
A nossa actividade, para além de alimentar os católicos mais envolvidos é muito direccionada para o diálogo:

a) Com os católicos baptizados mais afastados, permitindo-lhes o reencontro com o pensamento da Igreja
Muitos afastaram-se da Igreja após a sua caminhada de baptismo e catequese:
- Catequeses muito fracas;
- “Doutrinas” ditas da Igreja, que não são da Igreja, e são absurdas;
- Caricaturas da Igreja;
- Maus exemplos alegadamente da Igreja;
Numa palavra: um Europeu tem 15 anos de escolaridade antes de chegar ao mercado de trabalho (20 se for licenciado); um Cristão tem 4 a 6 anos de catequese: no que diz respeito à Fé, está na primária…
Quando a razão diz uma coisa e a “fé” da catequese diz outra, começam as dúvidas e os afastamentos.
São Tomás de Aquino dizia: "Acreditar em Cristo é em si uma coisa boa, mas constitui uma falta moral crer em Cristo se a razão considera que esse acto é mau. Cada um deve obedecer à sua consciência mesmo que esta esteja errada." Ia Ilae q. 19 art. 5.

b) Com demais baptizados cristãos, mas não católicos, apresentando a nossa abertura aos nossos irmãos
Torna-se necessário dar passos reais de ecumenismo ao nível pessoal.
Retirar ideias preconcebidas de afastamentos que, na realidade, não existem.
Praticar o acolhimento, primeiro passo em direcção à comunhão.

c) Com os não crentes, através de uma linguagem na qual é possível para eles estabelecer um diálogo
Muitos não crentes definem-se assim por contraposição a ideias absurdas que lhes são transmitidas de Deus.
E que eles igualmente transmitem.
Nesse caso identifico-me plenamente com eles: também sou não crente de um Deus que manda matar, que manda sofrer ou fazer sofrer, de um Deus que anda no bolso com a lista dos nossos pecados para nos condenar.
Do Deus que manda as sete pragas para o Egipto ou que destrói as cidades.
Deste “deus” tão ao jeito dos reis pagãos também eu sou não crente.
Onde é que posso dialogar com estes não crentes – aqueles Homens de Boa Vontade de que falou o Concílio – senão na cultura, apresentando-lhes aí a nossa proposta?

d) O falar em todas as línguas é falar aqui na língua da cultura:
“Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem.” Act 2, 4
Não irmos nós em busca dos nossos irmãos falando na língua deles é uma falta ao nosso dever de evangelizar.
Para uma faixa citadina europeia a cultura pode vir a ser o único local de encontro ou de reencontro com Cristo.
As Verdades cristãs aparecem-nos hoje descristianizadas e, por isso, com falta de conteúdo.
Falta de alma.
Disto se queixava um amigo meu quando se juntou a um grupo de voluntariado: falta-lhe alma, dizia ele.
De seguida juntou-se aos leigos para o desenvolvimento.
Casou-se pela Igreja, baptizou os filhos.
Iniciou a sua caminhada.
O esquecimento deliberado da mensagem Cristã pela Europa do Desenvolvimento Social abre o caminho às crises sociais como acontece em França.
Quando a Solidariedade Social se mede pelos orçamentos, e não também pela mensagem Cristã, não existe presente nem futuro para os mais desfavorecidos.
As grandes conquistas alegadamente laicas, como os direitos fundamentais, por exemplo, não foram criadas com a Revolução Francesa.
Qual é o direito fundamental que não vem no Evangelho?
Desconheço.
Assumamos a nossa identidade no dia a dia, com as nossas palavras e actos.
Se cada católico diariamente por palavras e actos tiver visivelmente uma atitude cristã, o mundo mudará para melhor.

João (JMA)

Congresso Internacional da Nova Evangelização
Atelier dias 07 e 10 de Novembro de 2005
Centro Cultural Franciscano / Lux Mundi