13 de abril de 2007
21 de março de 2007
O cristianismo e a criação

CRISTIANISMO, JUDAÍSMO E ISLAMISMO
'O cristianismo e a criação'
Pe. Doutor Joaquim Carreira das Neves
Não vamos tratar, aqui e agora, os problemas científicos sobre a criação, até porque a Bíblia nasceu, cresceu e foi-nos apresentada em tempos que nada tinham a ver com os da ciência. Damos como adquirido a ciência do evolucionismo, tão discutida a partir de Darwin. Muitos problemas continuam em aberto e, perante tais desafios, em meu entender, a única atitude correcta é estarmos abertos ao que é verdadeira ciência. É impressionante sabermos que ainda hoje há milhões de pessoas que, por causa da sua fé e da Bíblia, continuam agarradas à teoria criacionista. A verdadeira ciência nunca faz mal à fé nem à Bíblia: são complementares e não contraditórias.
A teologia bíblica da criação afirma a alteridade da natureza ou do mundo em relação a Deus. A natureza e todas as suas criaturas não são Deus, ao contrário de alguma filosofia grega, que defende a unidade do ser, da filosofia e teologia gnóstica e do movimento religioso moderno NEW AGE.
O livro do Génesis abre o pórtico da sua catedral com duas narrativas bem distintas sobre a criação. A primeira vem no Gn 1, 1-2, 4a e a segunda em Gn 2, 4b - 3, 1-24. Ao contrário dos mitos da Assíria e da Babilónia, em que a criação do mundo e dos humanos nascem do "caos" e vivem na sua dependência e maldade, pois são frutos do deus Marduk, que se serve do cadáver do monstro Tiamat, que ele matou, e do seu sangue, a criação é fruto da Palavra de Deus. Deus é o Totalmente Outro, o Santo, e as suas criaturas vivem nesta alteridade de amor. Só quem acredita desta maneira pode rezar o PAI NOSSO. Entre todas as criaturas, nas duas narrativas, sobressai a criação do homem e da mulher, que, pela sua liberdade e alteridade, pode dizer SIM ou NÃO a Deus.
A primeira narrativa abre e fecha com uma "inclusão bíblica": "No princípio criou Deus os céus e a terra" (1, 1). "Esta é a história dos céus e da terra, quando foram criados" (2, 4a). A narrativa é uma liturgia religiosa, que tem por fim apresentar os três tempos fundamentais da criação: o da natureza exógena (o mundo com os céus de estrelas e planetas, a terra com os seus animais e plantas), o da criação do homem e mulher, à imagem e semelhança de Deus (1, 27) e o da criação do sábado. A narrativa é salpicada com o refrão jussivo do verbo haver: "E Deus disse: Haja...", e com a visão retrospectiva do mesmo Deus sobre a "bondade" da criação: "E Deus viu que era bom...". Depois de ter criado o homem e a mulher, Deus entrega a mesma criação e todo o seu mundo ao mesmo homem-mulher. A partir daqui, eles são com-criadores de Deus. Têm a criança nas mãos para a fazerem crescer e ser feliz: "Sede fecundos e multiplicai-vos e enchei a terra e submetei-a." (1, 18). Será que o homem moderno, cheio de interesses consumistas, entende esta mensagem?
A criação do sábado, com toda a solenidade que Deus lhe confere com os verbos "abençoar" e "santificar", apenas nos diz que o poema tem em vista a liturgia sabática porque Deus , santo, eterno e sem criação, deve ser amado e respeitado. O simples facto do poema usar o nome ELOHIM para dizer Deus, e não YHWH, indicia o tempo tardio da sua composição e a sua origem sacerdotal, do tempo do exílio ou pós-exílio, que eram de dificuldade, pobreza e incerteza. E é precisamente no meio de todas estas dificuldades que o autor bíblico nos apresenta a bondade da criação e a responsabilidade do homem-mulher sobre a mesma.
A segunda narrativa (2, 4b-3, 1-24) é muito diferente da primeira porque, agora, o nome de Deus é YHWH-ELOHIM, e tem alguns contactos com os mitos mesopotâmicos, sobretudo com o Enuma Elish e Atra-hasis. Na Bíblia, o homem é modelado do pó da terra, mas nos mitos supracitados, a argila é amassada juntamente com o sangue e com os restos dos principais deuses maus (Kingu e Wê-ila), aliados de Tiamat. Os deuses, nos seus ciúmes, guerreiam-se e matam-se e é com o sangue dos mortos que criam a humanidade. Os humanos não são mais do que uns títeres de maldade nas mãos dos deuses. Mas na Bíblia, o homem é fruto da terra e do "sopro" de Deus. É como que um "beijo" de Deus. O homem é colocado por Deus num éden (jardim ou várzea cheia de água, árvores e frutos), com a permissão de comer de todas as suas maravilhas, menos da árvore do "conhecimento do bem e do mal".
As imagens do "éden", "árvore do conhecimento do bem e do mal", "árvore da vida", "costela" de Adão, "cobra",etc., devem ser entendidas como imagens, símbolos, e nada mais. O que importa é o seu significado. Deus dá ao homem um "auxílio", que é a mulher, porque o homem, entre os animais, que lhe pertencem pelo facto de os ter nomeado, vivia na maior das solidões. Nenhum animal era semelhante a ele. O "auxílio" (ézer, no masc.) é a mulher: "osso dos meus ossos, / carne da minha carne. / Será chamada 'ishsha (mulher) porque foi tirada de 'ish (homem)". Homem e mulher perfazem uma unidade indissolúvel. Foram postos no "eden" para adorarem Deus, mas a "cobra", que é o símbolo dos deuses da fertilidade, atrai para o seu mundo a mulher e, com ela, o homem. Não se trata de explicar a origem do mal, porque não há mal sem liberdade, mas de mostrar o poder atractivo e idolátrico de poder dizer NÃO a Deus, para dizer SIM aos ídolos. E quando o homem e a mulher descobrem o seu pecado, vêem que estão nus, têm medo de Deus e escondem-se dele. Deus retira o homem e a mulher do "éden" para não continuarem a endeusar-se, e coloca-os na realidade concreta da vida humana: o homem trabalha a terra com o suor do seu rosto e a mulher dará à luz com sofrimento.
Ao fim e ao cabo, a narrativa é uma etiologia ou narrativa justificativa da história de Israel, antes do povo possuir a Terra Prometida, durante a Terra Prometida, antes do exílio e durante o exílio. O homem-mulher devia adorar o verdadeiro Deus no "éden" da Terra Prometida, mas não o fez. Quis endeusar-se, seguiu o mundo apetecível da cobra, isto é, do politeísmo
dos Baales e demais deuses e deusas da fertilidade. Deus expulsa-os para o exílio, mas não os abandona porque a descendência do homem-mulher há-de vencer o sortilégio idolátrico da cobra.
A narrativa apresenta as grande interrogações humanas, de ontem e hoje: Como compreender o mal? A sua atracção? Qual o porquê da dureza da vida e das dores da mulher para dar à luz? Como compreender o exílio e a vida errante de eterna busca do homem? Como compreender a morte?
Saindo das narrativas do Génesis, e para melhor compreendermos a criação, temos que ler com atenção o Deutero Isaías, especialmente Is 40, 22. 26; 44, 6; 45, 8. 12. 48; 48, 13; 51, 12-16; 54, 5. As afirmações sobre YHWH como único criador, vêm sempre misturadas com a história da salvação no exílio e a partir do exílio. Nunca são afirmações de filosofia metafísica ou das ciências da natureza. O mesmo se diga em relação à "nova criação" de Jesus e do Espírito que nos deixou: Jo 1, 1-18; Mc 1, 1; 1, 12-13; Hb 9, 1-14; Ap 21-22; Rm 8, 18-22; Jo 3, 3-6; Ac 2,1-4.
Pe. Joaquim Carreira das Neves, OFM
in http://www.franciscanos.com.pt/
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20 de março de 2007

BAKUNIN
§ 1. Reacção e Revolução
Mikhail Bakunin (Pryamukhino, Rússia, 1814 – Bern 1876) foi um revolucionário cujas teorias contribuíram para o desenvolvimento do conceito de anarquismo, utilizando conceitos e linguagem retirados do léxico cristão. Podemos considerá-lo em certa medida como herdeiro do pensamento milenarista.
Bakunin considera que a “democracia é uma religião” e que os cidadãos se terão de tornar religiosos e que terão de aplicar esses mesmos princípios na vida quotidiana.
É evidente que estas ideias de Bakunin sobre a existência revolucionária democrática trazem as marcas do passado cristão. Conhecemos a escatologia do "povo de Deus." "a reversão total do estado do mundo" vem das novas “tábuas da lei” no Antigo Testamento; a "revelação, viva e vivificante " que traz "um céu novo e uma terra nova" é um anúncio messiânico; a distinção entre agitar ideias e realizá-las na "vida concreta" reflecte a metanóia cristã; "a vida original, nova" é a renovatio Evangelica. Toda a atmosfera de uma nova revelação iminente lembra as expectativas dos sectários ingleses do séc. XVII sobre o "Deus que virá” estabelecer o reino na terra.
Além desta estrutura formal da escatologia cristã, há uma outra continuidade com o cristianismo. A "liberdade do espírito" evocada é uma realização final do espírito cristão. Bakunin vê a luta pela liberdade como inerente à cristandade católica primitiva. O princípio da liberdade é "a fonte de todas as heresias". Em geral, a libertação das cadeias que oprimem os espíritos livres é o significado da história. Da liberdade nasceu a heresia vitoriosa do Protestantismo, inerente ao Catolicismo primitivo até se tornar independente. O presente atingiu uma nova época crítica, um futuro além do Catolicismo e do Protestantismo.
Sendo o Catolicismo uma “glória ultrapassada” e o Protestantismo “uma anarquia de seitas” vem Bakunin, (como um novo S. João Baptista – na expressão de Voegelin) propor criar o terceiro reino da liberdade: “Sabeis que, de acordo com o seu destino final, a humanidade só encontrará paz e serenidade num princípio universal prático que unifique poderosamente a miríade de manifestações da vida espiritual” (in “A reacção na Alemanha”)
Este princípio universal prático é uma religião sem Deus: é criada a partir do homem e a salvação vem do espírito do homem. Mais concretamente do espírito de Bakunin, ao mesmo tempo profeta e “dux”, autor dos escritos (sagrados?) que conduzem o seu povo (as massas) para o terceiro reino da liberdade.
Religião sem Deus que porém se obriga a uma das máximas do Cristianismo: "Só nós, que somos apelidados de inimigos da religião cristã, podemos e devemos praticar o amor concreto mesmo na luta mais calorosa, o mandamento mais elevado de Cristo e a essência da verdadeira Cristandade." (in “A reacção na Alemanha”)
Em resumo, identificamos em Bakunin: (1) a ausência de uma ideia positiva da ordem, (2) a identificação da liberdade com "a paixão alegre da destruição" (3) a descoberta das "massas" como agente histórico de destruição.
Pessoalmente, considero que Bakunin se via a si próprio como um novo Moisés: Ele é aquele que vai levar o seu povo – as massas – para a Terra Prometida – o terceiro reino depois do Cristianismo e do Protestantismo.
“Deus sabe onde me conduzirá. Eu sinto somente que nunca abdicarei dos meus passos e que nunca serei desleal às minhas convicções. Nisto reside toda a minha força e dignidade; Esta é a minha Confissão.” (Carta a Annenkov, Bruxelas, 28 de Dezembro de 1847).
Tal como Moisés não irá entrar na Terra Prometida. O revolucionário (ou profeta ou dux) descobre o caminho – a senda da destruição:
A destruição é o trabalho de uma geração de sacrifício; os revolucionários só podem destruir; a edificação "de um mundo novo e glorioso em que todas as dissonâncias actuais serão dissolvidas na unidade harmoniosa" fica para os que virão depois.
§2.A Confissão de Bakunin
Em 1851, Bakunin encontra-se preso na fortaleza de Pedro e Paulo a aguardar a deportação para a Sibéria, quando foi convidado pelo Czar a escrever uma Confissão dos seus pecados.
Obra complexa, a Confissão denota contradições nela mesma, e contradições com cartas secretas que enviou da prisão: os sentimentos de Bakunin são complexos; a carta secreta mostrava o rebelde, a Confissão é um misto de sinceridade e arrependimento.
Nota-se ali uma certa admiração pelo Czar: No artigo Reacção em Alemanha, de 1842, Bakunin distinguiu entre dois tipos de reaccionários; os consistentes e os comprometidos, ou mediadores. Despreza os segundos mas admira os primeiros.
Obviamente considera o Czar um reaccionário consistente. Aliás escreve nas Confissões: "Apesar das minhas convicções democráticas, adorei-vos profundamente nos últimos anos, contra minha vontade. Não só eu mas muitos outros, Polacos e Europeus em geral, compreenderam como sois o único, entre as cabeças coroadas, que preservou a fé na vocação imperial."
Bakunin nunca se arrependeu da sua existência revolucionária; arrependeu-se da futilidade dos seus esforços.
Esta desilusão tem muito a ver com o crescimento de grupos e seitas secretas comunistas na década de 40 do séc XVIII: para ele o comunismo era um sintoma de deterioração social, mas não o caminho de salvação que preconizava.
Atribuía ao crescimento do comunismo um instinto de revolta das massas contra a sociedade do seu tempo.
Bakunin foi forçado à existência revolucionária para ter um campo adequado de acção. A revolução no Ocidente seria o sinal para a revolução russa onde poderia desempenhar um papel activo. A intelligentsia russa do séc. XIX cresceu como uma classe isolada porque a ordem social e política (elogiar o governo chegou a ser considerado uma insolência subversiva) não deixava espaço para a acção construtiva de homens com inteligência, temperamento, instrução e vontade moral de reformar. É um lugar comum afirmar que um governo está em perigo quando os intelectuais estão na oposição. Mas os intelectuais não entram para a oposição por sua própria escolha mas sim porque nada mais vêem de digno para fazer. Uma ordem social alcança a fase crítica quando os homens de integridade intelectual e moral têm que se rebaixar para participar na vida pública. O insulto mais grave à personalidade humana é a negação da oportunidade que as qualidades se transformem em força activa na sociedade. Quando a corrupção afasta os membros mais valiosos da sociedade, a consequência será, conforme os tipos de personalidade, a passagem à contemplação ou a resistência activa mediante a destruição e criminalidade revolucionárias.
Bakunin move-se por uma fé voluntarista: "Só tenho um aliado: Fé! Digo a mim mesmo que a fé move montanhas, supera obstáculos, derrota o invencível e possibilita o impossível; a fé é metade da vitória e metade do sucesso; completada pela vontade poderosa cria as circunstâncias, amadurece os homens, junta-os e une-os.... Numa palavra: eu quero acreditar, e eu quero que os outros acreditem."
Trata-se, talvez, da mais perfeita descrição da mágica do mal, ou de como criar a realidade a partir de nada. A fé voluntarista opõe-se à vontade crente, do cristão. Esta "fé voluntarista" manifesta-se em Bakunin na invenção prodigiosa de sociedades revolucionárias imaginárias mas com resultados tangíveis. A fé e a imaginação entram no curso da história, criam as circunstâncias e produzem efeitos incríveis. É a primeira aparição da magia negra que regressará com a “magia radical” de Nietzsche", no persistência com que Lenine agarra o kairos e no poder e “Vitória de Fé” de Hitler.
Bakunin defende um imperialismo pan eslavista: começando por uma revolução russa pretende a grande libertação dos Eslavos (todos os territórios Eslavos e Polacos em posse da Alemanha, húngaros, romenos, moldavos e gregos com capital em Constantinopla).
No final, acabamos por ter aqui a denominada Europa de Leste, com excepção dos gregos e de Constantinopla.
Aliás chega a apelar ao Czar nas Confissões para realizar essa federação pan eslavista.
§ 3. O anarquismo
Quando a ordem política entope os canais legítimos de acção construtiva, as inteligências activas ficam num impasse. Quando se juntam a experiência da culpa pela miséria social, a vontade de reformar e a experiência de impotência, um indivíduo de moral exigente podes ser levado ao desejo de auto-sacrifício. O acto terrorista é um sacrifício em sentido duplo: o terrorista arrisca a vida fisicamente, porque será executado se for apanhado; em segundo lugar, e mais importante, o terrorista sacrifica a sua personalidade moral porque comete um assassinato.
O terrorismo como modelo moral é um sintoma da doença em que o mal assume a forma de espiritualidade.
Com Kropotkin torna-se explícita a necessidade de destruição das instituições: Ao criarem a dependência do homem, as instituições políticas e económicas transformaram-se em fonte do mal; a sua destruição por uma revolta social permitirá reconstruir a sociedade.
Esta posição esclarece a necessidade sentida por Bakunin na destruição das instituições: a luta dele contra o Cristianismo não será mais uma luta contra a instituição Igreja?
Uma terceira posição quanto ao anarquismo é a de Tolstoi: Tolstoi fundou o anarquismo numa ética cristã evangélica e achava que a salvação não resulta de uma mudança de instituições; as novas instituições não substituem a mudança do coração. A reforma não resulta de conspirações e revoluções; tem que ser efectuada por esclarecimento e persuasão, despertando as consciências, pelo exemplo de vida e, se necessário, pela resistência passiva aos mandamentos do estado não cristão.
Gandhi aproveita das ideias de Tolstoi um conhecimento da rebelião civil e resistência passiva como armas políticas contra as autoridades governamentais.
Tal como Tolstoi, Gandhi introduz a ética escatológica como uma arma política; a pequena diferença é que Tolstoi assentava o seu anarquismo no prestígio do Evangelho, enquanto Gandhi adquiriu uma auréola de santidade oriental.
§4. Fundar o reino novo
Bakunin era prodigioso a montar organizações, sobre as quais não se sabe se existiam de facto ou apenas na cabeça dele: Até que ponto essas organizações existiam realmente ou somente na sua imaginação nem sempre se pode comprovar.
Em 1868 funda a Aliança Internacional Social-Democrata que tinha como objectivo ser o Estado Maior da 1ª Internacional, sob a capa de formar um núcleo de revolucionários.
Aí choca – mais uma vez - com Marx (já chocavam no campo das ideias: Marx quer ordem / Bakunin quer destruição; Marx quer um sistema científico / Bakunin acusa-o de autoritarismo; Marx fala proletariado e sobretudo dos trabalhadores e ainda dentro destes dos operários / Bakunin refere as massas; Nos anos 60,(século XIX) quando Marx inicia a organização internacional do proletariado, Bakunin ainda escreve panfletos a glorificar o salteador russo.)
Bakunin e Marx queriam um movimento revolucionário para homens sem país, e por meio da organização revolucionária queriam criar um país para este povo desabrigado.
A ideia de um homem sem país cuja pátria é a revolução não surge entre trabalhadores; é uma projecção do intelectual isolado que se transforma em líder das massas.
Marx criou uma doutrina que servia como a escrita sagrada do apostolado; como organizador foi fraco. Lenine refinou a doutrina, e criou uma organização centralizada implacável. Como estadista aproveitou bem o seu momento, enxertando a revolução dos trabalhadores internacionais na revolução camponesa russa. Estaline constrói a revolução internacional dentro do seu povo, no que se chama por vezes o "Thermidor" da revolução russa. Mas como movimento internacional, a revolução chegara ao fim; os partidos comunistas nos países ocidentais são instrumentos do novo estado russo.
Diferente era a posição de Bakunin: Bakunin confia no carisma. Mesmo quando a concepção é ditatorial e centralista quer a transformação da personalidade. Além disso, nunca concebeu um “estado dentro do estado” que fosse o futuro núcleo do poder após um golpe de estado; criou instrumentos para a destruição das instituições existentes que, após a vitória, seriam substituídas pela vida federal livre do novo povo revolucionário.
Dado o desinteresse pelas instituições permanentes, a actividade de Bakunin move-se na atmosfera do fantástico.[…] O elemento do fantástico radica na doença do espírito que constitui a crise revolucionária e relaciona-se com a “magia radical”. Na existência espiritual saudável, a acção é moldada pela substância espiritual que pretende comunicar, transformando a substância potencial em realmente comum. Por exemplo, na República, Platão aguarda pela receptividade à sua visão mística; quando tentou concretamente fundar uma cidade modelo o filósofo rei ficou-se pelos limites da academia. Em Bakunin, a acção é determinada pela vontade de uma existência pseudo espiritual; como falta a substância orientadora a comunicar, as tentativas sucedem-se de maneira irresponsável.
Nas suas organizações Bakunin vai criar estruturas piramidais sucessivas, as quais vão ser utilizadas por Marx: a organização em pirâmide ressurge na situação revolucionária: (1) a massa da humanidade reaccionária, que não serve para nada; (2) a parte eleita da humanidade, os "trabalhadores”, que são o sal da terra; (3) os operários, que são o grupo mais avançado dos trabalhadores; (4) o partido comunista, vanguarda do proletariado; (5) o círculo interno dos líderes dentro do partido, que culmina no politburo; (6) a estratosfera dos pais fundadores, Marx e Lenin.
§ 5. O caso Nechaiev
A revolução tem um começo e um fim, a fase de destruição e a de reconstrução. O revolucionário verdadeiro não tem planos de reconstrução. Ao chegar o momento amargo da luta; "o nosso alvo é a destruição completa de todos os laços sociais." A geração actual tem que destruir as circunstâncias abomináveis em que vive; a reconstrução é tarefa reservada para forças mais puras que hão-de surgir." Para o revolucionário, é um crime contemplar o futuro nebuloso; seria um obstáculo ao curso da destruição. "Numa causa prática, seria um abuso inútil do espírito." É preciso dedicar-se à destruição permanente, num crescendo que não deixará em pé qualquer forma social. "Chamarão a isto terrorismo! Mas devemos permanecer indiferentes a esses uivos e não participar em acordos com os que estão destinados a morrer!" (in "Os Princípios da Revolução")
Bakunin sondou as profundezas da existência negativa e compreendeu o salto místico do mundo para o paraíso. A destruição total é a contrapartida intramundana da "morte para o mundo" e a santificação da vida em preparação para a graça redentora da morte. A aniquilação intramundana não liquida apenas o mundo a destruir; também absorve a personalidade do revolucionário. Para o revolucionário, a acção significa a morte para o mundo velho mas, ao contrário do cristão, não verá o paraíso futuro. O sacrifício da existência não serve a purificação e a salvação da alma; a contracção revolucionária é o clímax da busca intramundana de imortalidade. Mas o revolucionário não vive para a fama na posteridade como os estadistas do renascimento e os homens de letras; assume o papel do salvador que inverte a queda e redime o mal. Mais que um filho, é um pai; Bakunin não promete o reino de Deus no além; promete o paraíso terreno. Deus expulsou o homem do paraíso; Bakunin irá devolvê-lo.
Alguns corolários do pensamento de Bakunin:
A religião é um instrumento de degradação - deve ser removida.
A propriedade privada é um instrumento de exploração – fora com a propriedade privada dos instrumentos da produção.
A burocracia é um instrumento de opressão – fora com o salariat.
O Estado é a fonte do mal – fora com o Estado.
A autoridade em geral restringe a liberdade – fora com a teologia, a ciência institucionalizada (contra Comte), e a liderança política institucionalizada (contra Mazzini).
Insistência de Bakunin no federalismo como a lei estrutural da sociedade futura.
Se dermos ao homem a possibilidade de praticar o mal, se lhe alimentarmos a vaidade, a ambição, e a cupidez à custa de outro, o homem praticará o mal.
O Satanismo de Bakunin
A primeira ideia de Dieu et l'Ètat e do apêndice ao Fantome Divin é a inversão satânica da Queda. Bakunin inverte toda a narrativa do Génesis: "Deus quis privar o homem da consciência de si; quis que ele permanecesse eternamente um animal de quatro patas, prostrado perante Deus eterno, seu criador e mestre. Mas então veio Satã, revolucionário, o eterno revoltado, o primeiro “libre penseur” e emancipador do mundo. Envergonha o homem pela sua ignorância e obediência bestial; emancipa-o e imprime-lhe na fronte o selo da liberdade e da humanidade, persuadindo-o a desobedecer e comer o fruto do conhecimento." E Bakunin continua: "O homem é emancipado (…) A história do desenvolvimento humano foi iniciada pela desobediência e o conhecimento (ciência), ou seja, pela revolta e pelo pensamento.”
Até ao fim, Bakunin recusa definir qualquer lei ou ideia articulada da sociedade. A ordem é determinada por sucessivos acordos da alma individual revoltada com os sentimentos das massas. A liberdade permanece em tensão entre a revolução contra a autoridade e a imersão no povo. Nas últimas obras, Bakunin recorre frequentemente à imagem do fluxo da natureza: a humanidade na história é um mar em movimento e o homem está na crista da onda. Talvez este misticismo final da revolução como imersão no fluxo natural da humanidade seja especificamente russo. Mas a última palavra de Bakunin é idêntica à primeira em 1842: o “retorno interno” deve ser substituído pela revolução política; a orientação espiritual pelos "interesses reais" das massas; e a renovação da alma pela imersão na revolução popular.
Nota: todos os itálicos sem indicação de obra ou autor são do livro e capítulo em análise.
Uma leitura de Eric Voegelin “A Idade Contemporânea”, Livro 26, Cap.4 - Existência Revolucionária: Bakunin
As Religiões Políticas

Uma consideração religiosa do nacional-socialismo deveria partir do pressuposto que possa existir Mal no mundo; e não o Mal como um modo deficiente do ser, como um negativo, mas como uma verdadeira substância e uma força efectiva no mundo. Face a uma tal substância, não apenas moralmente má, mas também religiosamente maléfica, satânica, a oposição não pode ser conduzida senão a partir de uma força igualmente poderosa, mas religiosamente boa. Não se pode combater uma força satânica somente com moralidade e sentimentos de humanidade.
Eric Voegelin, Prefácio de Dezembro de 1938
8 de novembro de 2005
O pensamento cristão - diálogo com o mundo
1 - Originalidade da proposta cristã: a Salvação é para todos, não só para um grupo de eleitos.
O Cristianismo é uma religião para todos, por isso universal, por isso católica.
Não se reduz, nem de forma alguma se pode reduzir a um qualquer grupo “especial”.
O Povo de Deus é uma multidão que tem de comum o apelo de Deus.
De diferente tem a resposta de cada um na sua individualidade ao mesmo apelo.
Mas aquilo que é oferecido ao Povo de Deus, independentemente da resposta que der ao apelo divino, é a Salvação, a Comunhão com Deus.
a) Esoterismos e cia: a religiosidade do pronto a servir
Não há lugar no Cristianismo para mensagens secretas só para alguns eleitos.
A mensagem é universal e vai sendo adaptada a todos os povos, mantendo sempre o essencial do essencial.
Por esse motivo se distingue desde logo de todas as tentativas de criar uma religião com alguns “eleitos”; igualmente se distingue das pseudo-igrejas “a la carte”, as quais fazem uma escolha daquilo que querem, rejeitando o resto.
O essencial da religião cristã não é parcialmente descartável. Nem se pode escolher por parcelas.
b) Proposta de vida para todos
O Cristianismo é uma proposta de vida para todos. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” Jo 10,10
Diz o Evangelho de S. Mateus:
“Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; 15nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. 16Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu.» Mt 5,14
Este é o “moto” deste Grupo de Evangelização.
A proposta radical que nos faz é a da evangelização com o nosso exemplo.
Com as nossas obras.
Dentro do nosso mundo, nos nossos locais de trabalho, na nossa família, junto dos nossos amigos e conhecidos.
Ser a luz do mundo significa estar com a Verdade, não com as modas.
Independentemente do que isso em cada momento representa, é a nossa única opção.
Kant chamar-lhe-ia o nosso imperativo categórico.
c) Não é uma Igreja para os “perfeitos”
Existe uma ideia, errada, de que a Igreja é um grupo de pessoas perfeitas. Seria bom que o fosse, talvez.
Mas a realidade é que a Igreja é um conjunto de Santos e de pecadores. E todos têm o seu local na Igreja.
E na verdade, quantos Santos conhecemos que não tivessem sido pecadores?
Nem aliás a função da Igreja seria essa. Diz o Evangelista Lucas (Lc 5,30 – 32)
30Os fariseus e os doutores da Lei murmuravam, dizendo aos discípulos: «Porque comeis e bebeis com os cobradores de impostos e com os pecadores?»
31Jesus tomou a palavra e disse-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os que estão doentes. Não foram os justos que Eu vim chamar ao arrependimento, mas os pecadores.»
Não existe aqui um grupo de eleitos ou de perfeitos, mas sim a Salvação Universal pela Graça de Deus.
Nem a Igreja faz sentido para se fechar sobre si própria ou para excluir quem quer que seja.
É junto de todos nós que a Igreja tem o seu sentido de existência.
Tentando, tal como Cristo fez, sentar-se à mesa (comungar) com aqueles que têm necessidade de Deus nas suas vidas, não os excluindo por serem pecadores. Pelo contrário, a vinda de Crista é para conduzir os homens a Deus, começando pelos mais afastados os “cobradores de impostos e os pecadores”, ou seja, nós todos.
d) Nem para os “bons”
A Igreja também não existe para os “bons”.
Quais “bons”, é questão de perguntar. Responde Cristo (Mc 10,17-18)
17Quando se punha a caminho, alguém correu para Ele e ajoelhou-se, perguntando: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» 18Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus.»
Se estamos à espera de sermos bons para nos aproximarmos ou reaproximarmos da Igreja, é melhor esperar sentado.
e) Convite à santidade
“Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste” Mt 5,48
Deus transmite-nos um convite. O convite à santidade. O convite a caminharmos para ele, nosso fim último.
Cabe-nos a nós responder a tal convite, da forma que conseguirmos.
Cada um de forma diferente, pois por isso nos criou Deus à sua imagem e semelhança, livres. Livres para voluntariamente seguirmos o caminho que nos conduz ao Pai.
Aquilo a que aquele convite nos impele é a fazermos um esforço de caminhada. E cada qual caminhará no seu passo, pelo seu próprio traçado, construindo a sua e a nossa história.
Sempre com o objectivo de caminhar para o Pai.
f) Apelo à missão
O apelo que a todos é feito, sem excepção, é um apelo à missão. (Mt 28,19-20)
19Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, 20ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.»
g) A nossa resposta
Responde Paulo qual pode ser a nossa resposta. 1 Cor 9,16
“Porque, se eu anuncio o Evangelho, não é para mim motivo de glória, é antes uma obrigação que me foi imposta: ai de mim, se eu não evangelizar!”
Esta é a nossa resposta, de homens livres, em busca da verdade.
Será possível ser livre, sem responder a esta interpelação essencial para a nossa vida?
A Verdade é Deus, o Caminho é Cristo.
2 – Abertos ao Mundo
a) A tentação de montar as tendas na montanha:
Mc 9,5”Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Mestre, bom é estarmos aqui; façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias.»
O nosso lugar é no mundo com tudo o que este tem de bom (e é muito) e com aquilo que este tem de mau.
Não é dentro de paredes que evangelizamos, mas no mundo em que vivemos.
Montar as nossas tendas à parte do mundo pode ser muito reconfortante e relaxante mas seguramente não foi esse o mandato que recebemos.
b) “Francisco, reconstrói a minha casa”: a pequena capela, a Igreja, o mundo
Tal com Francisco somos interpelados a participar na reconstrução da Igreja.
Com dois milénios de construção a Igreja necessita da nossa pequena ajuda para crescer na Fé, para evangelizar.
Aceitemos o apelo entendido por Francisco como uma interpelação pessoal a cada um de nós.
c) A ida da evangelização - frades franciscanos vão evangelizar dentro e fora.
Desde o início da sua presença em Portugal os Franciscanos começam a sua evangelização por todo o País.
d) O retorno da evangelização - após a expulsão das ordens religiosas em Portugal (1834) são os leigos que mantêm viva a religiosidade franciscana;
Apesar da expulsão das ordens religiosas em Portugal, em 1834, mantém-se presente em Portugal o carisma e a espiritualidade franciscanas.
Essa presença é particularmente assegurada pelos leigos que mantêm viva a religiosidade franciscana.
Depois de terem sido evangelizados chegou o momento de serem eles evangelizadores.
e) Francisco e o sultão: diálogo em vez de cruzadas
A abertura ao mundo é sempre realizada numa postura de diálogo.
E rejeitando sempre a violência como resposta aos problemas.
3 – Leigos batem à porta do Convento
a) Com uma proposta de evangelizar através da cultura
Um grupo bate à porta do convento, com uma interpelação a esse convento.
A proposta é a de ser esse mesmo grupo de leigos a evangelizar, através de uma área específica: a da cultura.
b) Transmitindo a sua inquietação ao convento
Ao transmitir esta sua proposta ao Convento, desencadeia no Convento uma resposta à mesma proposta.
Transmite para o Convento estas inquietações e esta nova proposta de evangelização, junto de uma área (a cultura) nem sempre de convivência pacífica com a Igreja.
c) A missão consiste em dar e receber
A resposta positiva do Convento a esta interpelação e a estas inquietações traduz-se numa reciprocidade do dar e receber entre o Convento e os leigos que permitem um esforço de evangelização conjunta para o exterior e num reforço de laços no interior.
Aqui ressaltou o entendimento que Evangelizar é um movimento de sentido duplo, não se colocando os leigos apenas como receptores e os religiosos como emissores, mas colocando ambos como receptores e ambos como emissores.
d) Não serem apenas evangelizados mas também evangelizadores
Os leigos passam assim de uma posição de mera recepção – de evangelizados – a agentes de propagação da Fé – evangelizadores – através da sua presença numa plataforma de diálogo específica.
Passam assim para o exterior uma imagem de unidade entre religiosos e leigos com uma finalidade comum: evangelizar.
Mantendo-se distintas as competências específicas de leigos e sacerdotes, entendem todos a missão de evangelizar como uma missão a que todos são chamados.
4 – A nossa proposta específica: privilegiar a Cultura como palco de diálogo
A cultura é o palco de diálogo que permite reunir pessoas que não seria fácil congregar numa linguagem de Fé.
Mas é possível congregá-los na linguagem da cultura, mostrando aí a nossa presença.
A nossa actividade, para além de alimentar os católicos mais envolvidos é muito direccionada para o diálogo:
a) Com os católicos baptizados mais afastados, permitindo-lhes o reencontro com o pensamento da Igreja
Muitos afastaram-se da Igreja após a sua caminhada de baptismo e catequese:
- Catequeses muito fracas;
- “Doutrinas” ditas da Igreja, que não são da Igreja, e são absurdas;
- Caricaturas da Igreja;
- Maus exemplos alegadamente da Igreja;
Numa palavra: um Europeu tem 15 anos de escolaridade antes de chegar ao mercado de trabalho (20 se for licenciado); um Cristão tem 4 a 6 anos de catequese: no que diz respeito à Fé, está na primária…
Quando a razão diz uma coisa e a “fé” da catequese diz outra, começam as dúvidas e os afastamentos.
São Tomás de Aquino dizia: "Acreditar em Cristo é em si uma coisa boa, mas constitui uma falta moral crer em Cristo se a razão considera que esse acto é mau. Cada um deve obedecer à sua consciência mesmo que esta esteja errada." Ia Ilae q. 19 art. 5.
b) Com demais baptizados cristãos, mas não católicos, apresentando a nossa abertura aos nossos irmãos
Torna-se necessário dar passos reais de ecumenismo ao nível pessoal.
Retirar ideias preconcebidas de afastamentos que, na realidade, não existem.
Praticar o acolhimento, primeiro passo em direcção à comunhão.
c) Com os não crentes, através de uma linguagem na qual é possível para eles estabelecer um diálogo
Muitos não crentes definem-se assim por contraposição a ideias absurdas que lhes são transmitidas de Deus.
E que eles igualmente transmitem.
Nesse caso identifico-me plenamente com eles: também sou não crente de um Deus que manda matar, que manda sofrer ou fazer sofrer, de um Deus que anda no bolso com a lista dos nossos pecados para nos condenar.
Do Deus que manda as sete pragas para o Egipto ou que destrói as cidades.
Deste “deus” tão ao jeito dos reis pagãos também eu sou não crente.
Onde é que posso dialogar com estes não crentes – aqueles Homens de Boa Vontade de que falou o Concílio – senão na cultura, apresentando-lhes aí a nossa proposta?
d) O falar em todas as línguas é falar aqui na língua da cultura:
“Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem.” Act 2, 4
Não irmos nós em busca dos nossos irmãos falando na língua deles é uma falta ao nosso dever de evangelizar.
Para uma faixa citadina europeia a cultura pode vir a ser o único local de encontro ou de reencontro com Cristo.
As Verdades cristãs aparecem-nos hoje descristianizadas e, por isso, com falta de conteúdo.
Falta de alma.
Disto se queixava um amigo meu quando se juntou a um grupo de voluntariado: falta-lhe alma, dizia ele.
De seguida juntou-se aos leigos para o desenvolvimento.
Casou-se pela Igreja, baptizou os filhos.
Iniciou a sua caminhada.
O esquecimento deliberado da mensagem Cristã pela Europa do Desenvolvimento Social abre o caminho às crises sociais como acontece em França.
Quando a Solidariedade Social se mede pelos orçamentos, e não também pela mensagem Cristã, não existe presente nem futuro para os mais desfavorecidos.
As grandes conquistas alegadamente laicas, como os direitos fundamentais, por exemplo, não foram criadas com a Revolução Francesa.
Qual é o direito fundamental que não vem no Evangelho?
Desconheço.
Assumamos a nossa identidade no dia a dia, com as nossas palavras e actos.
Se cada católico diariamente por palavras e actos tiver visivelmente uma atitude cristã, o mundo mudará para melhor.
João (JMA)
Congresso Internacional da Nova Evangelização
Atelier dias 07 e 10 de Novembro de 2005
Centro Cultural Franciscano / Lux Mundi
O Cristianismo é uma religião para todos, por isso universal, por isso católica.
Não se reduz, nem de forma alguma se pode reduzir a um qualquer grupo “especial”.
O Povo de Deus é uma multidão que tem de comum o apelo de Deus.
De diferente tem a resposta de cada um na sua individualidade ao mesmo apelo.
Mas aquilo que é oferecido ao Povo de Deus, independentemente da resposta que der ao apelo divino, é a Salvação, a Comunhão com Deus.
a) Esoterismos e cia: a religiosidade do pronto a servir
Não há lugar no Cristianismo para mensagens secretas só para alguns eleitos.
A mensagem é universal e vai sendo adaptada a todos os povos, mantendo sempre o essencial do essencial.
Por esse motivo se distingue desde logo de todas as tentativas de criar uma religião com alguns “eleitos”; igualmente se distingue das pseudo-igrejas “a la carte”, as quais fazem uma escolha daquilo que querem, rejeitando o resto.
O essencial da religião cristã não é parcialmente descartável. Nem se pode escolher por parcelas.
b) Proposta de vida para todos
O Cristianismo é uma proposta de vida para todos. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” Jo 10,10
Diz o Evangelho de S. Mateus:
“Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; 15nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. 16Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu.» Mt 5,14
Este é o “moto” deste Grupo de Evangelização.
A proposta radical que nos faz é a da evangelização com o nosso exemplo.
Com as nossas obras.
Dentro do nosso mundo, nos nossos locais de trabalho, na nossa família, junto dos nossos amigos e conhecidos.
Ser a luz do mundo significa estar com a Verdade, não com as modas.
Independentemente do que isso em cada momento representa, é a nossa única opção.
Kant chamar-lhe-ia o nosso imperativo categórico.
c) Não é uma Igreja para os “perfeitos”
Existe uma ideia, errada, de que a Igreja é um grupo de pessoas perfeitas. Seria bom que o fosse, talvez.
Mas a realidade é que a Igreja é um conjunto de Santos e de pecadores. E todos têm o seu local na Igreja.
E na verdade, quantos Santos conhecemos que não tivessem sido pecadores?
Nem aliás a função da Igreja seria essa. Diz o Evangelista Lucas (Lc 5,30 – 32)
30Os fariseus e os doutores da Lei murmuravam, dizendo aos discípulos: «Porque comeis e bebeis com os cobradores de impostos e com os pecadores?»
31Jesus tomou a palavra e disse-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os que estão doentes. Não foram os justos que Eu vim chamar ao arrependimento, mas os pecadores.»
Não existe aqui um grupo de eleitos ou de perfeitos, mas sim a Salvação Universal pela Graça de Deus.
Nem a Igreja faz sentido para se fechar sobre si própria ou para excluir quem quer que seja.
É junto de todos nós que a Igreja tem o seu sentido de existência.
Tentando, tal como Cristo fez, sentar-se à mesa (comungar) com aqueles que têm necessidade de Deus nas suas vidas, não os excluindo por serem pecadores. Pelo contrário, a vinda de Crista é para conduzir os homens a Deus, começando pelos mais afastados os “cobradores de impostos e os pecadores”, ou seja, nós todos.
d) Nem para os “bons”
A Igreja também não existe para os “bons”.
Quais “bons”, é questão de perguntar. Responde Cristo (Mc 10,17-18)
17Quando se punha a caminho, alguém correu para Ele e ajoelhou-se, perguntando: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» 18Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus.»
Se estamos à espera de sermos bons para nos aproximarmos ou reaproximarmos da Igreja, é melhor esperar sentado.
e) Convite à santidade
“Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste” Mt 5,48
Deus transmite-nos um convite. O convite à santidade. O convite a caminharmos para ele, nosso fim último.
Cabe-nos a nós responder a tal convite, da forma que conseguirmos.
Cada um de forma diferente, pois por isso nos criou Deus à sua imagem e semelhança, livres. Livres para voluntariamente seguirmos o caminho que nos conduz ao Pai.
Aquilo a que aquele convite nos impele é a fazermos um esforço de caminhada. E cada qual caminhará no seu passo, pelo seu próprio traçado, construindo a sua e a nossa história.
Sempre com o objectivo de caminhar para o Pai.
f) Apelo à missão
O apelo que a todos é feito, sem excepção, é um apelo à missão. (Mt 28,19-20)
19Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, 20ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.»
g) A nossa resposta
Responde Paulo qual pode ser a nossa resposta. 1 Cor 9,16
“Porque, se eu anuncio o Evangelho, não é para mim motivo de glória, é antes uma obrigação que me foi imposta: ai de mim, se eu não evangelizar!”
Esta é a nossa resposta, de homens livres, em busca da verdade.
Será possível ser livre, sem responder a esta interpelação essencial para a nossa vida?
A Verdade é Deus, o Caminho é Cristo.
2 – Abertos ao Mundo
a) A tentação de montar as tendas na montanha:
Mc 9,5”Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Mestre, bom é estarmos aqui; façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias.»
O nosso lugar é no mundo com tudo o que este tem de bom (e é muito) e com aquilo que este tem de mau.
Não é dentro de paredes que evangelizamos, mas no mundo em que vivemos.
Montar as nossas tendas à parte do mundo pode ser muito reconfortante e relaxante mas seguramente não foi esse o mandato que recebemos.
b) “Francisco, reconstrói a minha casa”: a pequena capela, a Igreja, o mundo
Tal com Francisco somos interpelados a participar na reconstrução da Igreja.
Com dois milénios de construção a Igreja necessita da nossa pequena ajuda para crescer na Fé, para evangelizar.
Aceitemos o apelo entendido por Francisco como uma interpelação pessoal a cada um de nós.
c) A ida da evangelização - frades franciscanos vão evangelizar dentro e fora.
Desde o início da sua presença em Portugal os Franciscanos começam a sua evangelização por todo o País.
d) O retorno da evangelização - após a expulsão das ordens religiosas em Portugal (1834) são os leigos que mantêm viva a religiosidade franciscana;
Apesar da expulsão das ordens religiosas em Portugal, em 1834, mantém-se presente em Portugal o carisma e a espiritualidade franciscanas.
Essa presença é particularmente assegurada pelos leigos que mantêm viva a religiosidade franciscana.
Depois de terem sido evangelizados chegou o momento de serem eles evangelizadores.
e) Francisco e o sultão: diálogo em vez de cruzadas
A abertura ao mundo é sempre realizada numa postura de diálogo.
E rejeitando sempre a violência como resposta aos problemas.
3 – Leigos batem à porta do Convento
a) Com uma proposta de evangelizar através da cultura
Um grupo bate à porta do convento, com uma interpelação a esse convento.
A proposta é a de ser esse mesmo grupo de leigos a evangelizar, através de uma área específica: a da cultura.
b) Transmitindo a sua inquietação ao convento
Ao transmitir esta sua proposta ao Convento, desencadeia no Convento uma resposta à mesma proposta.
Transmite para o Convento estas inquietações e esta nova proposta de evangelização, junto de uma área (a cultura) nem sempre de convivência pacífica com a Igreja.
c) A missão consiste em dar e receber
A resposta positiva do Convento a esta interpelação e a estas inquietações traduz-se numa reciprocidade do dar e receber entre o Convento e os leigos que permitem um esforço de evangelização conjunta para o exterior e num reforço de laços no interior.
Aqui ressaltou o entendimento que Evangelizar é um movimento de sentido duplo, não se colocando os leigos apenas como receptores e os religiosos como emissores, mas colocando ambos como receptores e ambos como emissores.
d) Não serem apenas evangelizados mas também evangelizadores
Os leigos passam assim de uma posição de mera recepção – de evangelizados – a agentes de propagação da Fé – evangelizadores – através da sua presença numa plataforma de diálogo específica.
Passam assim para o exterior uma imagem de unidade entre religiosos e leigos com uma finalidade comum: evangelizar.
Mantendo-se distintas as competências específicas de leigos e sacerdotes, entendem todos a missão de evangelizar como uma missão a que todos são chamados.
4 – A nossa proposta específica: privilegiar a Cultura como palco de diálogo
A cultura é o palco de diálogo que permite reunir pessoas que não seria fácil congregar numa linguagem de Fé.
Mas é possível congregá-los na linguagem da cultura, mostrando aí a nossa presença.
A nossa actividade, para além de alimentar os católicos mais envolvidos é muito direccionada para o diálogo:
a) Com os católicos baptizados mais afastados, permitindo-lhes o reencontro com o pensamento da Igreja
Muitos afastaram-se da Igreja após a sua caminhada de baptismo e catequese:
- Catequeses muito fracas;
- “Doutrinas” ditas da Igreja, que não são da Igreja, e são absurdas;
- Caricaturas da Igreja;
- Maus exemplos alegadamente da Igreja;
Numa palavra: um Europeu tem 15 anos de escolaridade antes de chegar ao mercado de trabalho (20 se for licenciado); um Cristão tem 4 a 6 anos de catequese: no que diz respeito à Fé, está na primária…
Quando a razão diz uma coisa e a “fé” da catequese diz outra, começam as dúvidas e os afastamentos.
São Tomás de Aquino dizia: "Acreditar em Cristo é em si uma coisa boa, mas constitui uma falta moral crer em Cristo se a razão considera que esse acto é mau. Cada um deve obedecer à sua consciência mesmo que esta esteja errada." Ia Ilae q. 19 art. 5.
b) Com demais baptizados cristãos, mas não católicos, apresentando a nossa abertura aos nossos irmãos
Torna-se necessário dar passos reais de ecumenismo ao nível pessoal.
Retirar ideias preconcebidas de afastamentos que, na realidade, não existem.
Praticar o acolhimento, primeiro passo em direcção à comunhão.
c) Com os não crentes, através de uma linguagem na qual é possível para eles estabelecer um diálogo
Muitos não crentes definem-se assim por contraposição a ideias absurdas que lhes são transmitidas de Deus.
E que eles igualmente transmitem.
Nesse caso identifico-me plenamente com eles: também sou não crente de um Deus que manda matar, que manda sofrer ou fazer sofrer, de um Deus que anda no bolso com a lista dos nossos pecados para nos condenar.
Do Deus que manda as sete pragas para o Egipto ou que destrói as cidades.
Deste “deus” tão ao jeito dos reis pagãos também eu sou não crente.
Onde é que posso dialogar com estes não crentes – aqueles Homens de Boa Vontade de que falou o Concílio – senão na cultura, apresentando-lhes aí a nossa proposta?
d) O falar em todas as línguas é falar aqui na língua da cultura:
“Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem.” Act 2, 4
Não irmos nós em busca dos nossos irmãos falando na língua deles é uma falta ao nosso dever de evangelizar.
Para uma faixa citadina europeia a cultura pode vir a ser o único local de encontro ou de reencontro com Cristo.
As Verdades cristãs aparecem-nos hoje descristianizadas e, por isso, com falta de conteúdo.
Falta de alma.
Disto se queixava um amigo meu quando se juntou a um grupo de voluntariado: falta-lhe alma, dizia ele.
De seguida juntou-se aos leigos para o desenvolvimento.
Casou-se pela Igreja, baptizou os filhos.
Iniciou a sua caminhada.
O esquecimento deliberado da mensagem Cristã pela Europa do Desenvolvimento Social abre o caminho às crises sociais como acontece em França.
Quando a Solidariedade Social se mede pelos orçamentos, e não também pela mensagem Cristã, não existe presente nem futuro para os mais desfavorecidos.
As grandes conquistas alegadamente laicas, como os direitos fundamentais, por exemplo, não foram criadas com a Revolução Francesa.
Qual é o direito fundamental que não vem no Evangelho?
Desconheço.
Assumamos a nossa identidade no dia a dia, com as nossas palavras e actos.
Se cada católico diariamente por palavras e actos tiver visivelmente uma atitude cristã, o mundo mudará para melhor.
João (JMA)
Congresso Internacional da Nova Evangelização
Atelier dias 07 e 10 de Novembro de 2005
Centro Cultural Franciscano / Lux Mundi
18 de outubro de 2005
João XXIII

Ângelo Giuseppe Roncalli, nasceu aos 25 de novembro de 1881, na pequena cidade de Soto il Monte, em Bérgamo, Itália. Era o quarto filho de uma família de camponeses pobres. O ambiente religioso da família e a fervorosa atividade paroquial foram a sua primeira escola de vida cristã, marcando a sua feição espiritual. O menino Angelino, como era carinhosamente chamado, era muito ativo, bondoso e inteligente. Terminou os estudos num lampejo tanto que no seminário era o mais jovem da classe. Aos quinze anos de idade, foi admitido na Ordem franciscana secular, professando as regras no ano seguinte. E aos dezenove anos, já havia completado os cursos, mas pelas leis eclesiásticas não poderia ser ordenado sacerdote antes dos vinte e quatro anos de idade. Assim foi enviado para Roma como bolsista da diocese de Bérgamo, para se formar no Pontifício Seminário Gregoriano. Também, neste tempo, prestou um ano de serviço militar.
Recebeu a Ordenação sacerdotal em 1904 em Roma e, no ano seguinte, foi nomeado secretário do novo Bispo de Bérgamo, trabalhando também no Seminário como professor. Além disto, foi assistente da Ação Católica Feminina, colaborador no diário católico de Bérgamo e pregador muito solicitado pela sua eloqüência elegante, profunda e eficaz. Em 1915, quando estourou a Primeira Guerra Mundial, serviu a Itália como soldado integrante do corpo de saúde e, depois, como capelão militar. No fim da guerra, abriu a "Casa do Estudante" e trabalhou na pastoral dos jovens estudantes. Quando o Papa Bento XV o chamou à Roma em 1921, teve início a segunda parte da sua vida, dedicada ao serviço da Santa Igreja. Alí exerceu a presidência nacional do Conselho das Obras Pontifícias para a Propagação da Fé, como tal percorreu muitas dioceses da Itália organizando círculos missionários.
Foi o Papa Pio XI que o iniciou na carreira diplomática em 1925, na função de visitador apostólico da Bulgária e o elevou à dignidade episcopal. No mesmo foi nomeado delegado apostólico na Turquia e Grécia, onde ficou até 1935. O trabalho intenso de Roncalli à serviço dos católicos romanos, ganhava cada vez mais destaque pelo tom do diálogo e pelo trato respeitoso com os cristãos ortodoxos e os muçulmanos. Quando irrompeu a Segunda Guerra Mundial, ele estava na Grécia, onde procurou dar notícias sobre os prisioneiros de guerra e salvou muitos judeus com a "permissão de trânsito", fornecida pela Delegação Apostólica. Já nos últimos meses da guerra, em 1944, foi como núncio apostólico, para Paris. Uma vez restabelecida a paz, ajudou os prisioneiros de guerra e trabalhou para normalizar a vida eclesial na França.
Consagrado Cardeal, em 1953, foi designado patriarca de Veneza. No Conclave de 1958 foi eleito Papa, tomando o nome de João XXIII, aos setenta e sete anos de idade. O seu pontificado, durou menos de cinco anos, e se tornou muito apreciado, sobretudo, porque lançou as Encíclicas "Pacem in terris" e "Mater et magistra". Também, convocou o Sínodo romano, instituiu uma Comissão para a revisão do Código de Direito Canônico e convocou o Concílio Ecumênico Vaticano II em 11 de outubro de 1962. Este Papa exalava odor de santidade, sendo assim reconhecido pelo seu rebanho que o chamava apenas de "Papa Bom". Foi irradiando a paz, própria de quem confia sempre na Providência Divina, que ele morreu no dia 03 de junho de 1963, em Roma.
No Jubileu do ano 2000, o Papa João XXIII foi beatificado pelo Sumo Pontífice João Paulo II, cuja celebração foi marcada para ocorrer no dia 11 de outubro, dada a importância do Concílio iniciado por ele nesta data.
in evangelhododia@yahoogrupos.com.br
20 de setembro de 2005
O Paradigma de Assis

A Jornada Mundial de Oração pela Paz, realizada em 1986 na cidade de Assis (Itália), constitui um marco fundamental no campo do diálogo inter-religioso. Pela primeira vez na história, inúmeras lideranças religiosas mundiais encontram-se para juntos rezar e testemunhar a natureza transcendente da paz. Os que participaram da experiência são unânimes em afirmar o seu caráter extraordinário. Na opinião do Dalai Lama, o encontro de Assis resultou extremamente benéfico, pois "simbolizava a solidariedade e um compromisso com a paz demonstrado por todos os que participaram" . Ao mencionar o evento, João Paulo II afirmou que a sintonia de sentimentos que ali ocorreu provocou a vibração das "cordas mais profundas do espírito humano" . Ali estavam, lado a lado, os cristãos das várias Igrejas e comunidades eclesiais e representantes de outras tradições religiosas, como companheiros no caminho comum, em atitude de oração, jejum e peregrinação.
O paradigma de Assis, revelador de uma nova perspectiva dialogal para as religiões, retoma sua atualidade neste momento particular da conjuntura eclesial, marcado pelos complexos desdobramentos da Declaração Dominus Iesus, publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé em setembro de 2000. Esta Declaração harmoniza-se com uma tendência muito presente no atual campo religioso católico, marcado pela afirmação da identidade com ênfase na centralidade do anúncio explícito. O novo "entrincheiramento identitário" revela um temor polifônico: do relativismo, do indiferentismo, da desubstancialização da fé, de uma nova reforma na Igreja.
Mas também o medo das conseqüências e implicações teológicas de uma maior aproximação com outras comunidades de fé. De modo particular, o receio de descobrir que Deus possa falar de formas diversificadas, enquanto dom de gratuidade e surpresa permanente.
Faustino Teixeira
Publicado na revista Concilium 3/2001; o artigo completo pode ser lido em http://www.empaz.org/dudu/du_art12.htm
10 de setembro de 2005
Cristianismo e Liberdade
Cristianismo e Liberdade são dois grandes conceitos que deveriam ter o mesmo significado. «Foi para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gal. 5,1): ainda que S. Paulo possa ter dirigido essas palavras aos seus cristãos, por motivos relacionados com as circunstâncias do seu tempo e do local em que viviam, a sua frase não deixa de ser o lema de todos os cristãos, de todos os tempos. Pelas suas origens, a Igreja deveria assumir o papel de guardiã da liberdade neste mundo. No entanto a liberdade que Jesus pretendeu oferecer aos seus discípulos e discípulas tem sido constantemente reprimida, ao longo de quase toda a História da Igreja. Essa repressão, brutal e sanguinária aquando das guerras religiosas, das Cruzadas, da Inquisição e da caça às bruxas, continua viva nos dias de hoje, ainda que os métodos repressivos se tenham modificado. Para os mais velhos entre nós a perseguição astuta da liberdade de pensamento e expressão, perseguição que não poupa sequer a discussão científica, é ainda uma recordação presente e malfazeja. Essa atitude continua a exercer uma influência insidiosa nos nossos dias.Contudo, o papa João XXIII estabeleceu, como objectivo para o Concílio que convocou em 1959, a abertura da Igreja ao sopro de um vento renovador. E, de facto, o mundo entendeu quer o decurso, quer as conclusões do Concílio, como um movimento em direcção à liberdade. O facto de, actualmente, pouco restar de todos estes ideais é a própria medida das carências da Igreja dos nossos dias.
Ora, como os homens anseiam mais que nunca por liberdade, o seu afastamento da Igreja é cada
vez mais acentuado e imparável.
(...)
Lucerna, Ano Novo 1995
Herbert Haag, Liberdade aos Cristãos, início do Prólogo, Círculo de Leitores
13 de julho de 2005
Conclusão da Crítica da Razão Prática, Immanuel Kant

"Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior assiduidade delas se ocupa a reflexão: O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim"
...
O primeiro espectáculo de uma inumerável multidão de mundos aniquila, por assim dizer, a minha importância como criatura animal que deve restituir ao planeta (um simples ponto no universo) a matéria de que era feita, depois de, por um breve tempo (não se sabe como) ter sido provida de força vital. O segundo, pelo contrário, eleva infinitamente o meu valor como inteligência por meio da minha personalidade, na qual a lei moral me descobre uma vida independente da animalidade e mesmo de todo o mundo sensível, pelo menos, tanto quanto se pode inferir da destinação conforme a um fim da minha existência por essa lei, que não se restringe a condições e limites desta vida, mas se estende até ao infinito.
...
a ciência (buscada criticamente e introduzida metodicamente) é a porta estreita que leva à doutrina da sabedoria, se por esta se entende não só o que se deve fazer, mas o que deve servir de fio condutor aos mestres para abrir bem e com conhecimento o caminho para a sabedoria, que cada um deve seguir, e preservar os outros de falsas vias; uma ciência cuja depositária deve ser sempre a filosofia, em cuja subtil investigação não deve o público ter parte, mas sim nas doutrinas que, após uma tal elaboração, podem finalmente surgir-lhe em toda a sua claridade.
- Crítica da Razão Prática, A288 / A292
Immanuel Kant
26 de abril de 2005
O Cristão do Futuro por Karl Rahner

A Igreja em mudança
Não há dúvida que o Segundo Concílio do Vaticano, os seus procedimentos e debates, as diferenças de opinião que se tornaram aparentes, os relatórios de imprensa que os dissecaram e os exageraram, a existência de tendências e partidos então revelados, a luta por decisões desta forma e daquela, as alterações na liturgia e na lei subsequentemente decididas – todas essas experiências causaram uma profunda surpresa, inquietude e consternação em muitos círculos Católicos, até com uma extensão considerável entre o clero. O comentário, falsamente atribuído a um cardeal conservador, de que ele gostaria de morrer Católico, é meramente um pequeno, estranho sintoma. Outros Católicos aplaudiram o Concílio e o seu trabalho entusiasticamente como a longamente esperada e já realmente atrasada abertura, escancarando as janelas da Igreja para deixarem entrar algum ar fresco, e como uma reconstrução da velha fortaleza com as suas estreitas vigias numa casa, igualmente forte mas com grossas muralhas de vidro e com o mundo brilhando através delas, e no máximo pensaram que o “tempo” e resultados eram ainda muito modestos. Mas os primeiros tiveram uma inescapável impressão de profundo alarme.
A sua prévia experiência tinha-lhes mostrado a Igreja como uma torre inabalável nas _____ (seething waves) do tempo -- stat crux dum volvitur orbis – como a única autoridade com a coragem de manter princípios inalteráveis, como o estandarte dos eternos dogmas com a firmeza do granito, da persistente lei natural, da venerável tradição inquestionavelmente aceite e vivida, dos claros Sim e Não, dos princípios básicos os quais foram sempre conhecidos desde o início e apenas necessitam corajosamente de ser postos em prática, quer o mundo aprove ou não. Para eles precisamente a inamovível imutabilidade da doutrina e vida da Igreja parecia uma característica decisiva da Igreja Católica em contraste quer com as outras denominações Cristãs quer em geral com o espírito dos tempos. E agora eles têm a impressão que as pessoas estão a discutir tudo e nada, questionando tudo, que tudo está a cair, que a sua (talvez dificilmente conseguida) rígida adesão à doutrina, e acima de tudo a prática tradicional, da Igreja até ao mais pequeno detalhe do estilo da vida religiosa e secular, é desaprovada e quase desprezada pela Igreja e pelos seus representantes máximos. O amargo sentimento de ter sido deixado __________(in the lurch) pela Igreja, de ser como um objecto de censura perante os olhos do mundo de não-Católicos "que sempre o souberam", tentações contra a fé, desconfiança da segurança e confiabilidade das autoridades eclesiásticas, tais eram as consequências das “experiências Conciliares” deste género as quais de facto – não há dúvida acerca disto – foram bem ou mal praticadas por muitos Católicos.
Não é necessário ilustrar esta situação aqui no início das nossas reflexões com exemplos das questões ou procedimentos que deram origem à inquietude, uma vez que iremos entrar na matéria, tão longe como seja necessário e possível, quando formarmos um juízo sobre isso.
A situação em questão já se deve ter tornado clara. É o estado de aqueles que são eclesialmente conservadores em face da experiência de profundas alterações na Igreja. E neste contexto a palavra “conservador” significa em princípio algo bastante positivo, pois também inclui a coragem em afirmar continuidade, princípios claros, desapego de modas efémeras, fidelidade para com a Palavra de Deus que perdura para sempre, respeito pela tradição, por aquilo se desenvolveu organicamente, pela sabedoria e experiência dos nossos ancestrais.
O que se pode dizer deste estado de coisas? O que ensinou o Concílio, o que decidiu, o que fez a esse respeito, e o que é que ele não ensinou, decidiu, fez?
O que se pode dizer em relação à mutabilidade e imutabilidade da doutrina da Igreja e na moral e vida Cristãs? Essa é a questão com a qual nos ocuparemos aqui. Não estamos preocupados com as múltiplas alterações na Igreja que formam o tema principal da história da Igreja, por outras palavras alterações que foram impostas simplesmente na Igreja como consequência inevitável da inserção da Igreja num padrão total de forças historicamente operativas(Estado, civilização, etc.). Estamos preocupados (ocupados) com as alterações que a própria Igreja activamente leva a cabo na sua lei e doutrina, e na qual a Igreja se muda a ela própria, e não é meramente submetida a mudanças, embora seja claro que ambos os conjuntos de mudanças se afectam mutuamente.
A fim de avançarmos na obscuridade e complexidade da questão, e para providenciarmos uma linha de rumo para as nossas reflexões, uma distinção necessita primeiro de ser desenhada, mesmo se não podemos senão imaginar que os dois pólos de distinção estão ligados por múltiplas conexões do mais complicado tipo.
Referimo-nos à distinção entre eclesialmente vinculativo e, no caso mais estrito, ensinamento dogmaticamente definido da Igreja por um lado, e a lei e prática da Igreja no outro. Assumamos para este momento esta distinção como válida e o seu significado como entendido. Isto depreender-se-à do decorrer daquilo que iremos dizer, e será vista como necessária e profundamente justificada.
18 de janeiro de 2005
Ler a História na Trindade

"Não devemos acreditar naqueles que declaram que Cristo é a resposta para as nossas interrogações. É uma afirmação profundamente falsa. Cristo é, antes de tudo, a subversão das nossas interrogações. Todos os dias, a sua primeira palavra para todos nós é "convertam-se", "mudai o coração e a vida". Nenhum de nós pode afirmar que acredita em Deus se em cada dia não se interroga - "creio em Deus?", isto é, se em cada dia não põe em jogo, de um modo novo, a sua vida.
Somente se Cristo é a subversão das interrogações, torna-se também a resposta, porque só se passa através do fogo purificador do encontro que muda o coração e a vida, que realiza a conversão, a metanoia, porque Cristo é também aquele que dá a paz ao coração inquieto. Então eis que a Palavra que emerge do silêncio, a Trindade revelada na cruz, nos convida a um cristianismo não ideológico, mas a um cristianismo humilde, feito da experiência do mistério, onde a primeira palavra a pronunciar é a palavra do exemplo da vida, da caridade activa, da experiência de Deus que se proclama mais por aquilo que se é, do que por aquilo que se faz."
Bruno Forte, Ler a História na Trindade, in C.M. Martini - B. Forte, Envolvidos pelo mistério da transfiguração. Um itinerário para o Jubileu, Gráfica de Coimbra, Coimbra 1997, 71-72
14 de dezembro de 2004
Os Sete Pecados Sociais

Li não faz muito tempo numa revista portuguesa um artigo que me chamou a atenção pela ousadia dos bispos daquele país em apresentar para os fiéis novos "pecados sociais" que estão preocupando a mesma sociedade e a igreja. O pecado não é novo e todos têm o seu desdobramento de uma única realidade: o egoísmo. Toda pessoa egoísta vai aumentando aos seus pecados uma lista sem fim, e a realidade em que viemos nos oferece possibilidade de rever a maneira de agir. Não importa a modernidade, nem se trata de pecados novos, mas de pecados velhos como o mundo que se envolve com um apelo novo, festivo e até de ...ousadia que pode parecer coragem "profética".
O artigo iniciava com estas palavras "a carta pastoral divulgada pelos bispos portugueses é um documento radical. O leitor mais apressado poderá até ser levado a pensar que está perante o manifesto comunista do séc. XXI". A Igreja fez um diagnóstico da realidade portuguesa não só econômica mas também ética, espiritual e moral. Por isso as orientações que são dadas oferece uma visão completa da situação do povo que vive neste momento histórico. A palavra chave desta carta é "responsabilidade solidária pelo bem comum". Hoje não se pode mais viver pensando em si mesmo. Não há felicidade individual, todos somos chamados a nos realizar na felicidade dos outros, a viver em serviço alegre pelos irmãos como o Senhor Jesus nos tem ensinado com sua vida.
Mas, quais são os novos pecados sociais? Vamos elencá-los em negrito para não esquece-los e verificar se existem dentro de nós ou se somos vacinados contra este tipo de pecados. Mas por enquanto vacinas contra os pecados não existem, só o que podem nos ajudar a supera-los é a graça de Deus que nos é oferecida gratuitamente pelo amor oblativo do mesmo Cristo.
Egoísmo, o consumismo, a corrupção, a desarmonia do sistema fiscal (com destaque para as simulações e fraudes fiscais por parte de cidadãos e grupos econômicos, frutos do seu egoísmo individualista e contrário à solidariedade social indispensável ao bem comum) , a irresponsabilidade nas estradas, a exagerada comercialização do fenômeno esportivo e a exclusão social são as novas faltas que exigem penitência e conversão.
Não é suficiente, para receber o perdão, que os novos pecadores rezem, mas é necessário, como sempre, mostrar com a vida uma transformação substancial no agir. Não é aceitável que hajam salários injustos e que ao se dê às pessoas as condições de higiene, proteção para poderem trabalhar com segurança. Todos têm direito a um salário que seja digno do trabalho exercido e do ser humano. Estas coisas para nós no Brasil faz tempo que são o grito da Igreja, mas é importante que esta voz venha de países europeus onde a mão de obra dos estrangeiros é barata e tem pouca segurança para o futuro. Ninguém pode ter o direito de explorar os outros porque vêm de outro país ou fala uma língua diferente.
A carta pastoral dá um destaque todo especial aos exageros no trânsito. Sabemos como nas grandes cidades européias e brasileiras muitas pessoas, especialmente jovens, morrem nos fins de semana vítimas de velocidade ou por dirigirem embriagados ou sob os efeitos da droga. Ultrapassagens perigosas, velocidades abusivas, não observar as regras de trânsito, colocando em perigo a vida de pedestres, fazem parte das recomendações da carta pastoral. Mas é preciso que também as autoridades cuidem das estradas e sejam bem conservadas com ótima sinalização para que os motoristas não sejam levados ao engano e provoquem acidentes.
A corrupção em todos os países e governos não é mais um caso isolado mas está se tornando um estilo de vida, uma procura para se enriquecer ilicitamente. É preciso coragem para combate-la e para vencer os políticos que vivem de corrupção explorando os mais pobres.
A sonegação fiscal também se torna pecado porque defrauda o Estado do que ele tem direito, e não adianta dizer uma frase velha como todos nós: "também o governo rouba e eu roubo também". Mal não se vence com o mal, a consciência profética dos católicos é fazer uso da própria cidadania para consertar as coisas erradas e não fazer eles mesmos coisas erradas.Mas diante desta situação não devemos pensar que tudo vai mal. A esperança permanece a grande força que agita o coração humano na busca do novo que está para surgir e para dar novo entusiasmo na luta contra o mal. O coração humano não pode fechar-se sobre si mesmo. Deus tem feito o mundo tão bonito e tão grande que tem espaço para todos, por isso acolher os "estrangeiros" é desejo também forte do Deus da vida e do amor. É caminho para todos nós buscarmos a paz, a harmonia e o amor que se faz vida. Os pecados sociais não são novos, porque sempre a Igreja, à luz da palavra de Deus, condenou por ex. colocar em risco a própria e a vida dos outros, ou não roubar pertence aos mandamentos de Deus. Não faz muita diferença que se roube via internet ou entrando na casa de alguém ou defraudando o salário justo do empregado. Roubar será sempre apropriar-se das coisas que não são nossas. Parece-me que estes sete pecados sociais não faltam também no Brasil.
Frei Patrício Sciadini, ocd.
1 de dezembro de 2004
A Igreja: O meu lar maternal

As experiências da vida têm-me ajudado a compreender a Igreja mais profundamente e a apreciá-la por aquilo que ela é. Tem-me acontecido, por diversas vezes, ficar como que arrancado das minhas raízes humanas. O cativeiro durante a guerra, primeiro numa fortaleza e depois num campo constituiu uma experiência de exílio num clima de suspeição. Relacionado com esta não consigo deixar de pensar no tempo que passei num hospital, que apesar da qualidade do tratamento que recebi, é um pouco como estar na prisão. No decurso desses diversos períodos de tempo, compreendi o lugar profundo que é ocupado nas nossas vidas por um laço afectivo com um contexto familiar, a que damos como verdadeiro nome: lar.
Isto é algo substancialmente diferente de uma mera ligação sentimental. É algo que vai para além da formulação de ideias claras, algo que envolve a incorporação vital do nosso eu mais profundo, algo pré-reflexivo e no entanto pleno de verdade; algo que começou antes de nós, que está para além de nós e que, no entanto nos envolve e nos sustenta em tudo o que fazemos. Vivemos num “ambiente” como o peixe na água, mas o ambiente também nos penetra, a sua trama está emaranhada na rede das nossas vidas.
Nós, os seres humanos também temos uma necessidade vital de não estarmos sozinhos. Aristóteles disse que um solitário é mais ou menos que um homem: aut bestia, aut deus, uma besta ou um deus, mas não um humano. Para o comum dos humanos nada destrói mais a sua humanidade que a solidão total; não o momento de solidão que pode, pelo contrário, acolher a plenitude e satisfação, mas o momento de em que se é arrancado pela raiz, de isolamento, de abandono. E se essa solidão é levada até ao ponto de degradação, estaremos na antecâmara da morte.
Por estas razões Jesus prometeu-nos que não nos deixaria órfãos, sem um lar. Órfãos, nós os Cristãos nunca o seremos; pois há um Pai que está no céu. Mas Jesus pensou também na nossa solidão terrena. No seu último testamento, cujos ecos mais profundos enchem os capítulos 13 a 17 de S. João, ele tomou precauções para os tempos da sua ausência corpórea, prometendo-nos o Espírito e dando-nos um apostolado.
As circunstâncias que rodearam a sua morte, e mais uma vez S. João é a testemunha solene, são igualmente significativas. Jesus entregou o Seu último suspiro, emisit spiritum, a João, o discípulo e a Maria, a Mãe, que representam a Igreja na base da cruz. Depois o soldado trespassou o lado de Jesus adormecido na morte e dela correu água e sangue. Os Padres da Igreja e os escritores da Idade Média viram nisto, de forma unânime, um símbolo dos sacramentos sobre os quais qual a Igreja foi construída. A água simboliza o Espírito e o sangue o Baptismo e a Eucaristia.
Aqui está o que Jesus nos deixa: o Espírito e a Noiva. Tal como Eva foi formada a partir do lado de Adão que dormia, assim o foi a Igreja, a nova Eva, formada pelo lado de Cristo crucificado. Em ambos os casos, os símbolos significaram a unidade de duas pessoas chamadas para formar uma única carne, um único corpo, no amor dos esposos destinado para a fecundidade da maternidade.
A reflexão religiosa, e se me permitem, teológica dos Antigos é ao mesmo tempo muito simples e muito profunda. Define-se a si própria em termos básicos da vida e da maternidade tal como Maria que, fecundada pelo Espírito Santo, deu ao mundo Jesus, assim o fez também a Igreja de Pentecostes ao gerar Cristãos para o apostolado através do espaço e dos séculos dos séculos. Mas de Sião há-de dizer-se: "Todos lá nasceram; o próprio Altíssimo a fortaleceu." (Sl 87, 5).
"A Igreja é," como diz Hugo Rahner de forma magnífica, "a Maria da história do Mundo." Tal reflexão é completada pela referência ao mistério da Redenção, dada na cruz, pela qual a Igreja é, por nascimento e por natureza, sacerdotal, consagrada a oferecer e a ser oferecida; ela realiza-se a si própria no acto eucarístico.
Jesus deixou-nos, mas, de modo a ficar ainda connosco durante a sua ausência física, deu-nos o Seu Espírito e a Sua Noiva, o Paráclito e a Igreja. Juntos preparam o Reino e juntos pronunciam aquela palavra feliz na qual a Revelação acaba "Vinde!" (22, 17).
Já não estaremos sozinhos, já não estaremos sem lar. O Espírito é o nosso Consolador, o nosso Defensor, o nosso Protector. Quem incessantemente auxilia o homem no sofrimento do mundo, quem lhe permite ser um discípulo do Evangelho. Temos de invocar com frequência este Espírito de Jesus, confiar n’Ele, atribuir-Lhe o bem que pode passar por entre “as nossas mãos vazias”.
Tal como o Espírito é um princípio de unidade extrínseca, a Sua presença é tão intrínseca que o Seu testemunho é quase indissociável dos movimentos da nossa própria mente. Ele é íntimo e pessoal: não “privado”, mas dado, como diz S. Paulo, nos nossos corações. É Ele que junta o “único com O Único, eu e o meu Criador” nos termos formulados por Newman. E é Ele que é " o lar espiritual” para nós irmãos e irmãs na Igreja: a fundação e o princípio da vida Cristã.
Indubitavelmente, há muita estreiteza de espírito e imaturidade, muitos trabalhos atamancados na Igreja. Vemos em demasiados círculos quão impreparada está a Igreja para dar respostas às verdadeiras questões que lhe são postas pelos homens. Mas tudo isso, por mais pesado que possa ser o fardo que carregamos, não tem importância quando comparado com o que podemos encontrar e encontramos de facto na Igreja.
A igreja tem sido, e é, o lar da minha alma, a mãe do meu ser espiritual. Ela oferece-me a possibilidade de viver com os santos; e quando é que ela me impediu de levar uma vida Cristã? No meio da dúvida e das tempestades, a Igreja é sempre digna da graça que habita nela e na multidão de testemunhas de que fala a Epístola aos Hebreus, graças à sua memória e à sua consciência de si que são a sua tradição viva e que operam de tal modo que a Igreja nunca sucumbe à dúvida.
Sim, podemos deplorar certas reacções de Roma: o tom e aspereza que irritam mas cuja perspicácia não podemos deixar de reconhecer. Oiçam o testemunho do Padre Lacordaire cuja eloquência não foi diminuída mesmo pela precisão das fórmulas e condenações de Roma que lhe foram pessoalmente dirigidas “ Ó Roma, depois de tantos séculos, encontrei-te íntegra, sempre virgem, sempre mãe, sempre mestra. Colocada entre as tempestades da Europa, nunca houve em ti qualquer incerteza sobre ti mesma ou lassitude"
É, tudo isto, demasiado pomposo, é um quadro demasiado idealizado? Talvez, mas nestas expressões há muita verdade.
Não consigo encontrar palavras suficientes para agradecer à Igreja por me terem dado vida, por me terem criado, no sentido mais forte do termo, num sentido de ordem e beleza.
Ela pôs ordem na minha vida, no meu espírito. Verdade: Existe um certo gosto pela ordem, ou melhor, um gosto por certa ordem que é perfeitamente capaz de erradicar a fome e a sede de justiça. Mas a minha Igreja repudiou tal traição do Evangelho. Também é verdade que o Catolicismo se atravancou a si próprio de coisas sem importância e se rodeou com muitas mediocridades estéticas perturbadoras. Mas está a libertar-se delas bastante bem.
Fica então a beleza incomparável da liturgia em todas as suas formas, em todas as suas fórmulas, na sua divisão de tempo ao longo do fio dos dias e das estações. Não revivemos já muitas vezes a experiência de Agostinho que recordou nas Confissões a sua frequência da Igreja de Milão: “Quanto não chorei, fortemente comovido, ao escutar os hinos e os cânticos, ressoando maviosamente na Vossa Igreja, suave sonantis ecclesiae tuae vocibus commotus acriter" (IX, 6, 14). Esteticismo? Tal expressão poderia emprestar-lhe tal carga, mas também poderia ser perfeitamente autêntica e apropriada, se é verdade que o homem é um todo e que se insere ele próprio num lar através da sua sensibilidade e do seu coração, tanto como através das suas ideias.
O meu lar, a Igreja, tem sido um local seguro e pacífico para a minha fé e para as minhas orações. E, porque não? Algumas mensagens, que têm o seu elemento de verdade, falam hoje em nome da inquietude, parece que um homem que não mostra impaciência, que não é atormentado por problemas, é um preguiçoso ou um ingénuo e que a agitação e a ansiedade é a atitude intelectual normal. É verdade que uma certa calma podia ser equivalente a insensibilidade, que uma certa paz podia ser sinal que traímos a nossa vocação, que nos fornecemos um álibi ou mudámos subitamente de assunto. É dos ímpios que o Salmo diz “Não sofrem as contrariedades da vida, nem são atormentados como os outros homens.” (73, 5).
Há uma forma de nos abrigarmos que seria uma forma de fraude. Mas uma vez que reconheçamos isto, não podemos aprovar o preconceito “a priori” que não há paz para o homem, nem a mania de criticar tudo que esteja relacionado com confiança serena dentro do quadro da Igreja. Mas a liturgia não nos fala a linguagem da inquietude: muito pelo contrário, fala da paz e da graça que incessantemente implora. "Ut ecclesia tua tranquilla devotione laetetur!" ("que a Tua Igreja possa, em devoção tranquila rejubilar!").
Antigamente, as nossas Igrejas eram, legalmente, locais de refúgio. Não deviam elas transformar em realidade esta vocação de uma maneira nova, adaptada ao homem moderno – exausto como está da competição, esmagado pela complexidade de tudo, enervado pelo estridor, intoxicado pela publicidade indiscreta, insidiosa e agressiva? Ah! Abençoada seja a paz do meu lar – a Igreja!
Pe. Yves Congar, OP (traduzido do inglês com autorização de http://www.jknirp.com/)
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