20 de março de 2007






BAKUNIN

§ 1. Reacção e Revolução


Mikhail Bakunin (Pryamukhino, Rússia, 1814 – Bern 1876) foi um revolucionário cujas teorias contribuíram para o desenvolvimento do conceito de anarquismo, utilizando conceitos e linguagem retirados do léxico cristão. Podemos considerá-lo em certa medida como herdeiro do pensamento milenarista.

Bakunin considera que a “democracia é uma religião” e que os cidadãos se terão de tornar religiosos e que terão de aplicar esses mesmos princípios na vida quotidiana.

É evidente que estas ideias de Bakunin sobre a existência revolucionária democrática trazem as marcas do passado cristão. Conhecemos a escatologia do "povo de Deus." "a reversão total do estado do mundo" vem das novas “tábuas da lei” no Antigo Testamento; a "revelação, viva e vivificante " que traz "um céu novo e uma terra nova" é um anúncio messiânico; a distinção entre agitar ideias e realizá-las na "vida concreta" reflecte a metanóia cristã; "a vida original, nova" é a renovatio Evangelica. Toda a atmosfera de uma nova revelação iminente lembra as expectativas dos sectários ingleses do séc. XVII sobre o "Deus que virá” estabelecer o reino na terra.
Além desta estrutura formal da escatologia cristã, há uma outra continuidade com o cristianismo. A "liberdade do espírito" evocada é uma realização final do espírito cristão. Bakunin vê a luta pela liberdade como inerente à cristandade católica primitiva. O princípio da liberdade é "a fonte de todas as heresias". Em geral, a libertação das cadeias que oprimem os espíritos livres é o significado da história. Da liberdade nasceu a heresia vitoriosa do Protestantismo, inerente ao Catolicismo primitivo até se tornar independente. O presente atingiu uma nova época crítica, um futuro além do Catolicismo e do Protestantismo.

Sendo o Catolicismo uma “glória ultrapassada” e o Protestantismo “uma anarquia de seitas” vem Bakunin, (como um novo S. João Baptista – na expressão de Voegelin) propor criar o terceiro reino da liberdade: “Sabeis que, de acordo com o seu destino final, a humanidade só encontrará paz e serenidade num princípio universal prático que unifique poderosamente a miríade de manifestações da vida espiritual” (in “A reacção na Alemanha”)

Este princípio universal prático é uma religião sem Deus: é criada a partir do homem e a salvação vem do espírito do homem. Mais concretamente do espírito de Bakunin, ao mesmo tempo profeta e “dux”, autor dos escritos (sagrados?) que conduzem o seu povo (as massas) para o terceiro reino da liberdade.

Religião sem Deus que porém se obriga a uma das máximas do Cristianismo: "Só nós, que somos apelidados de inimigos da religião cristã, podemos e devemos praticar o amor concreto mesmo na luta mais calorosa, o mandamento mais elevado de Cristo e a essência da verdadeira Cristandade." (in “A reacção na Alemanha”)

Em resumo, identificamos em Bakunin: (1) a ausência de uma ideia positiva da ordem, (2) a identificação da liberdade com "a paixão alegre da destruição" (3) a descoberta das "massas" como agente histórico de destruição.
Pessoalmente, considero que Bakunin se via a si próprio como um novo Moisés: Ele é aquele que vai levar o seu povo – as massas – para a Terra Prometida – o terceiro reino depois do Cristianismo e do Protestantismo.

Deus sabe onde me conduzirá. Eu sinto somente que nunca abdicarei dos meus passos e que nunca serei desleal às minhas convicções. Nisto reside toda a minha força e dignidade; Esta é a minha Confissão.” (Carta a Annenkov, Bruxelas, 28 de Dezembro de 1847).

Tal como Moisés não irá entrar na Terra Prometida. O revolucionário (ou profeta ou dux) descobre o caminho – a senda da destruição:
A destruição é o trabalho de uma geração de sacrifício; os revolucionários só podem destruir; a edificação "de um mundo novo e glorioso em que todas as dissonâncias actuais serão dissolvidas na unidade harmoniosa" fica para os que virão depois.

§2.A Confissão de Bakunin

Em 1851, Bakunin encontra-se preso na fortaleza de Pedro e Paulo a aguardar a deportação para a Sibéria, quando foi convidado pelo Czar a escrever uma Confissão dos seus pecados.

Obra complexa, a Confissão denota contradições nela mesma, e contradições com cartas secretas que enviou da prisão: os sentimentos de Bakunin são complexos; a carta secreta mostrava o rebelde, a Confissão é um misto de sinceridade e arrependimento.

Nota-se ali uma certa admiração pelo Czar: No artigo Reacção em Alemanha, de 1842, Bakunin distinguiu entre dois tipos de reaccionários; os consistentes e os comprometidos, ou mediadores. Despreza os segundos mas admira os primeiros.

Obviamente considera o Czar um reaccionário consistente. Aliás escreve nas Confissões: "Apesar das minhas convicções democráticas, adorei-vos profundamente nos últimos anos, contra minha vontade. Não só eu mas muitos outros, Polacos e Europeus em geral, compreenderam como sois o único, entre as cabeças coroadas, que preservou a fé na vocação imperial."

Bakunin nunca se arrependeu da sua existência revolucionária; arrependeu-se da futilidade dos seus esforços.

Esta desilusão tem muito a ver com o crescimento de grupos e seitas secretas comunistas na década de 40 do séc XVIII: para ele o comunismo era um sintoma de deterioração social, mas não o caminho de salvação que preconizava.

Atribuía ao crescimento do comunismo um instinto de revolta das massas contra a sociedade do seu tempo.

Bakunin foi forçado à existência revolucionária para ter um campo adequado de acção. A revolução no Ocidente seria o sinal para a revolução russa onde poderia desempenhar um papel activo. A intelligentsia russa do séc. XIX cresceu como uma classe isolada porque a ordem social e política (elogiar o governo chegou a ser considerado uma insolência subversiva) não deixava espaço para a acção construtiva de homens com inteligência, temperamento, instrução e vontade moral de reformar. É um lugar comum afirmar que um governo está em perigo quando os intelectuais estão na oposição. Mas os intelectuais não entram para a oposição por sua própria escolha mas sim porque nada mais vêem de digno para fazer. Uma ordem social alcança a fase crítica quando os homens de integridade intelectual e moral têm que se rebaixar para participar na vida pública. O insulto mais grave à personalidade humana é a negação da oportunidade que as qualidades se transformem em força activa na sociedade. Quando a corrupção afasta os membros mais valiosos da sociedade, a consequência será, conforme os tipos de personalidade, a passagem à contemplação ou a resistência activa mediante a destruição e criminalidade revolucionárias.

Bakunin move-se por uma fé voluntarista: "Só tenho um aliado: Fé! Digo a mim mesmo que a fé move montanhas, supera obstáculos, derrota o invencível e possibilita o impossível; a fé é metade da vitória e metade do sucesso; completada pela vontade poderosa cria as circunstâncias, amadurece os homens, junta-os e une-os.... Numa palavra: eu quero acreditar, e eu quero que os outros acreditem."

Trata-se, talvez, da mais perfeita descrição da mágica do mal, ou de como criar a realidade a partir de nada. A fé voluntarista opõe-se à vontade crente, do cristão. Esta "fé voluntarista" manifesta-se em Bakunin na invenção prodigiosa de sociedades revolucionárias imaginárias mas com resultados tangíveis. A fé e a imaginação entram no curso da história, criam as circunstâncias e produzem efeitos incríveis. É a primeira aparição da magia negra que regressará com a “magia radical” de Nietzsche", no persistência com que Lenine agarra o kairos e no poder e “Vitória de Fé” de Hitler.
Bakunin defende um imperialismo pan eslavista: começando por uma revolução russa pretende a grande libertação dos Eslavos (todos os territórios Eslavos e Polacos em posse da Alemanha, húngaros, romenos, moldavos e gregos com capital em Constantinopla).

No final, acabamos por ter aqui a denominada Europa de Leste, com excepção dos gregos e de Constantinopla.

Aliás chega a apelar ao Czar nas Confissões para realizar essa federação pan eslavista.

§ 3. O anarquismo

Quando a ordem política entope os canais legítimos de acção construtiva, as inteligências activas ficam num impasse. Quando se juntam a experiência da culpa pela miséria social, a vontade de reformar e a experiência de impotência, um indivíduo de moral exigente podes ser levado ao desejo de auto-sacrifício. O acto terrorista é um sacrifício em sentido duplo: o terrorista arrisca a vida fisicamente, porque será executado se for apanhado; em segundo lugar, e mais importante, o terrorista sacrifica a sua personalidade moral porque comete um assassinato.

O terrorismo como modelo moral é um sintoma da doença em que o mal assume a forma de espiritualidade.

Com Kropotkin torna-se explícita a necessidade de destruição das instituições: Ao criarem a dependência do homem, as instituições políticas e económicas transformaram-se em fonte do mal; a sua destruição por uma revolta social permitirá reconstruir a sociedade.

Esta posição esclarece a necessidade sentida por Bakunin na destruição das instituições: a luta dele contra o Cristianismo não será mais uma luta contra a instituição Igreja?

Uma terceira posição quanto ao anarquismo é a de Tolstoi: Tolstoi fundou o anarquismo numa ética cristã evangélica e achava que a salvação não resulta de uma mudança de instituições; as novas instituições não substituem a mudança do coração. A reforma não resulta de conspirações e revoluções; tem que ser efectuada por esclarecimento e persuasão, despertando as consciências, pelo exemplo de vida e, se necessário, pela resistência passiva aos mandamentos do estado não cristão.

Gandhi aproveita das ideias de Tolstoi um conhecimento da rebelião civil e resistência passiva como armas políticas contra as autoridades governamentais.

Tal como Tolstoi, Gandhi introduz a ética escatológica como uma arma política; a pequena diferença é que Tolstoi assentava o seu anarquismo no prestígio do Evangelho, enquanto Gandhi adquiriu uma auréola de santidade oriental.

§4. Fundar o reino novo

Bakunin era prodigioso a montar organizações, sobre as quais não se sabe se existiam de facto ou apenas na cabeça dele: Até que ponto essas organizações existiam realmente ou somente na sua imaginação nem sempre se pode comprovar.

Em 1868 funda a Aliança Internacional Social-Democrata que tinha como objectivo ser o Estado Maior da 1ª Internacional, sob a capa de formar um núcleo de revolucionários.

Aí choca – mais uma vez - com Marx (já chocavam no campo das ideias: Marx quer ordem / Bakunin quer destruição; Marx quer um sistema científico / Bakunin acusa-o de autoritarismo; Marx fala proletariado e sobretudo dos trabalhadores e ainda dentro destes dos operários / Bakunin refere as massas; Nos anos 60,(século XIX) quando Marx inicia a organização internacional do proletariado, Bakunin ainda escreve panfletos a glorificar o salteador russo.)

Bakunin e Marx queriam um movimento revolucionário para homens sem país, e por meio da organização revolucionária queriam criar um país para este povo desabrigado.

A ideia de um homem sem país cuja pátria é a revolução não surge entre trabalhadores; é uma projecção do intelectual isolado que se transforma em líder das massas.

Marx criou uma doutrina que servia como a escrita sagrada do apostolado; como organizador foi fraco. Lenine refinou a doutrina, e criou uma organização centralizada implacável. Como estadista aproveitou bem o seu momento, enxertando a revolução dos trabalhadores internacionais na revolução camponesa russa. Estaline constrói a revolução internacional dentro do seu povo, no que se chama por vezes o "Thermidor" da revolução russa. Mas como movimento internacional, a revolução chegara ao fim; os partidos comunistas nos países ocidentais são instrumentos do novo estado russo.

Diferente era a posição de Bakunin: Bakunin confia no carisma. Mesmo quando a concepção é ditatorial e centralista quer a transformação da personalidade. Além disso, nunca concebeu um “estado dentro do estado” que fosse o futuro núcleo do poder após um golpe de estado; criou instrumentos para a destruição das instituições existentes que, após a vitória, seriam substituídas pela vida federal livre do novo povo revolucionário.

Dado o desinteresse pelas instituições permanentes, a actividade de Bakunin move-se na atmosfera do fantástico.[…] O elemento do fantástico radica na doença do espírito que constitui a crise revolucionária e relaciona-se com a “magia radical”. Na existência espiritual saudável, a acção é moldada pela substância espiritual que pretende comunicar, transformando a substância potencial em realmente comum. Por exemplo, na República, Platão aguarda pela receptividade à sua visão mística; quando tentou concretamente fundar uma cidade modelo o filósofo rei ficou-se pelos limites da academia. Em Bakunin, a acção é determinada pela vontade de uma existência pseudo espiritual; como falta a substância orientadora a comunicar, as tentativas sucedem-se de maneira irresponsável.

Nas suas organizações Bakunin vai criar estruturas piramidais sucessivas, as quais vão ser utilizadas por Marx: a organização em pirâmide ressurge na situação revolucionária: (1) a massa da humanidade reaccionária, que não serve para nada; (2) a parte eleita da humanidade, os "trabalhadores”, que são o sal da terra; (3) os operários, que são o grupo mais avançado dos trabalhadores; (4) o partido comunista, vanguarda do proletariado; (5) o círculo interno dos líderes dentro do partido, que culmina no politburo; (6) a estratosfera dos pais fundadores, Marx e Lenin.

§ 5. O caso Nechaiev

A revolução tem um começo e um fim, a fase de destruição e a de reconstrução. O revolucionário verdadeiro não tem planos de reconstrução. Ao chegar o momento amargo da luta; "o nosso alvo é a destruição completa de todos os laços sociais." A geração actual tem que destruir as circunstâncias abomináveis em que vive; a reconstrução é tarefa reservada para forças mais puras que hão-de surgir." Para o revolucionário, é um crime contemplar o futuro nebuloso; seria um obstáculo ao curso da destruição. "Numa causa prática, seria um abuso inútil do espírito." É preciso dedicar-se à destruição permanente, num crescendo que não deixará em pé qualquer forma social. "Chamarão a isto terrorismo! Mas devemos permanecer indiferentes a esses uivos e não participar em acordos com os que estão destinados a morrer!" (in "Os Princípios da Revolução")

Bakunin sondou as profundezas da existência negativa e compreendeu o salto místico do mundo para o paraíso. A destruição total é a contrapartida intramundana da "morte para o mundo" e a santificação da vida em preparação para a graça redentora da morte. A aniquilação intramundana não liquida apenas o mundo a destruir; também absorve a personalidade do revolucionário. Para o revolucionário, a acção significa a morte para o mundo velho mas, ao contrário do cristão, não verá o paraíso futuro. O sacrifício da existência não serve a purificação e a salvação da alma; a contracção revolucionária é o clímax da busca intramundana de imortalidade. Mas o revolucionário não vive para a fama na posteridade como os estadistas do renascimento e os homens de letras; assume o papel do salvador que inverte a queda e redime o mal. Mais que um filho, é um pai; Bakunin não promete o reino de Deus no além; promete o paraíso terreno. Deus expulsou o homem do paraíso; Bakunin irá devolvê-lo.

Alguns corolários do pensamento de Bakunin:
A religião é um instrumento de degradação - deve ser removida.
A propriedade privada é um instrumento de exploração – fora com a propriedade privada dos instrumentos da produção.
A burocracia é um instrumento de opressão – fora com o salariat.
O Estado é a fonte do mal – fora com o Estado.
A autoridade em geral restringe a liberdade – fora com a teologia, a ciência institucionalizada (contra Comte), e a liderança política institucionalizada (contra Mazzini).
Insistência de Bakunin no federalismo como a lei estrutural da sociedade futura.
Se dermos ao homem a possibilidade de praticar o mal, se lhe alimentarmos a vaidade, a ambição, e a cupidez à custa de outro, o homem praticará o mal.

O Satanismo de Bakunin

A primeira ideia de Dieu et l'Ètat e do apêndice ao Fantome Divin é a inversão satânica da Queda. Bakunin inverte toda a narrativa do Génesis: "Deus quis privar o homem da consciência de si; quis que ele permanecesse eternamente um animal de quatro patas, prostrado perante Deus eterno, seu criador e mestre. Mas então veio Satã, revolucionário, o eterno revoltado, o primeiro “libre penseur” e emancipador do mundo. Envergonha o homem pela sua ignorância e obediência bestial; emancipa-o e imprime-lhe na fronte o selo da liberdade e da humanidade, persuadindo-o a desobedecer e comer o fruto do conhecimento." E Bakunin continua: "O homem é emancipado (…) A história do desenvolvimento humano foi iniciada pela desobediência e o conhecimento (ciência), ou seja, pela revolta e pelo pensamento.”

Até ao fim, Bakunin recusa definir qualquer lei ou ideia articulada da sociedade. A ordem é determinada por sucessivos acordos da alma individual revoltada com os sentimentos das massas. A liberdade permanece em tensão entre a revolução contra a autoridade e a imersão no povo. Nas últimas obras, Bakunin recorre frequentemente à imagem do fluxo da natureza: a humanidade na história é um mar em movimento e o homem está na crista da onda. Talvez este misticismo final da revolução como imersão no fluxo natural da humanidade seja especificamente russo. Mas a última palavra de Bakunin é idêntica à primeira em 1842: o “retorno interno” deve ser substituído pela revolução política; a orientação espiritual pelos "interesses reais" das massas; e a renovação da alma pela imersão na revolução popular.

Nota: todos os itálicos sem indicação de obra ou autor são do livro e capítulo em análise.

Uma leitura de Eric Voegelin “A Idade Contemporânea”, Livro 26, Cap.4 - Existência Revolucionária: Bakunin

3 comentários:

gab disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
João (JMA) disse...

Como deveria ser mais do que óbvio, não se aceitam comentários desrespeitosos.

Discutam as ideias à vontade, mas com termos.

Wallace Benetti disse...

muito obrigado me ajudou muito no meu trabalho!!